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DOCUMENTO DA ASSOCIAÇÃO DOS ROTEIRISTAS - AR
O roteiro é o calcanhar de Aquiles do cinema brasileiro. Foi visando sensibilizar a sociedade e os poderes públicos para esta questão que a Diretoria da Associação dos Roteiristas, AR, decidiu recomendar a todos os seus associados que não participem do edital de Desenvolvimento de Roteiros do Ministério da Cultura.
Nossa decisão se dá após o esgotamento das tentativas de negociação com a Secretaria do Audiovisual. Com o objetivo de contribuir para o debate, nossa entidade elaborou , já há algum tempo, uma longa pauta de sugestões para melhorar o investimento público em roteiros.
A Secretaria de Audiovisual do Minc não atendeu nenhuma das nossas reivindicações e, em recente entrevista à imprensa, explicitou que não considera que os roteiristas profissionais devam ser foco de sua atuação.
Nós, no entanto, temos certeza que profissionalização dos roteiristas é uma questão prioritária para o cinema brasileiro. Consideramos importante o incentivo a iniciantes, mas sabemos que não adianta revelar novatos se eles não terão espaço para se fixar no mercado.
Ainda falta muito para a real profissionalização dos roteiristas de cinema no Brasil e esse amadorismo tem sido o principal defeito do nosso cinema. Por isso, o maior investimento em roteiro não é de interesse apenas dos autores-roteiristas. Interessa a todo o audiovisual brasileiro.
Diagnóstico do Problema:
Diante do reconhecido desinteresse do público pelo atual cinema brasileiro, muitos ainda acreditam que o principal nó é a distribuição. Mas o fato é que a maior dificuldade está nos roteiros, seja pelos temas pouco interessantes seja pela frouxa construção dramática.
No entanto, não são os autores-roteiristas os culpados por esse quadro desolador e sim a falta de investimento para a elaboração dos roteiros. Países com cinematografia desenvolvida investem pesadamente na criação de roteiros e projetos.
No Brasil, a importância deles é subestimada. Os editais públicos partem do pressuposto de que os roteiros já estão escritos, sem dar nenhum subsidio ao desenvolvimento dos mesmos.
Devido a isso, a imensa maioria dos roteiristas de cinema ainda trabalha "no risco" e para receber a posteriori, o que os obriga a fazer o trabalho nas horas vagas de outras tarefas profissionais. E sem certeza de que serão remunerados.
Escrever um bom roteiro exige largo tempo de maturação e revisão. No entanto, quando a empresa capta os recursos, a produção começa imediatamente, sem mais reflexões ou revisões do roteiro, o que gera filmes deficientes e muito dinheiro público jogado na lata de lixo.
Além disso, vários diretores desconhecem as técnicas de roteiro e consideram a si mesmos autores completos, aptos a escrever suas próprias obras. Uma prova disso é que, mesmo quando chamam um roteirista, os diretores fazem questão de assinar o roteiro.
É inegável que o diretor participa da criação do roteiro, assim como participa de tudo no filme, do casting, da fotografia, do som, etc. Dentro dessa lógica de assinar roteiro, o diretor do filme deveria assinar todas as funções. Mas não é o que acontece.
Ao assinar o roteiro, o diretor quer evidenciar que se trata de uma "obra autoral" e, comumente, quer também garantir que a maior parte do orçamento do roteiro vá para seu próprio bolso. Os roteiristas profissionais ficam assim totalmente desvalorizados, tanto criativa, quanto financeiramente. O resultado é visível - e às vezes risível - nas telas.
Desenvolvimento deve ser prioridade do investimento público
São necessárias políticas que corrijam essas distorções do mercado. Investir em desenvolvimento é uma tarefa específica dos órgãos públicos.
Lembramos que as empresas privadas que costumam investir no cinema brasileiro trabalham com a lógica de marketing cultural e, portanto, não têm nenhuma política para desenvolvimento de roteiros (pois eles não garantem que o filme vá ser feito e, portanto, não são produtos a que elas possam associar as marcas).
Apenas a Secretaria do Audiovisual, a Ancine e órgãos públicos estaduais e municipais têm a possibilidade de investir em desenvolvimento de roteiros. Mas na verdade ainda investem muito pouco.
O edital de desenvolvimento de roteiro do Minc tem só 10 prêmios para todo o país, sendo quatro para estreantes. Resulta que todos os roteiristas profissionais do Brasil disputam apenas seis prêmios, que ainda obedecem a prioridades regionais, e têm valor abaixo do mercado.
Na indústria internacional, é comum que roteiros que foram financiados em seu desenvolvimento não sejam produzidos. Pode parecer desperdício de dinheiro, mas trata-se, na verdade, de uma imensa economia. É muito mais barato perder dinheiro no roteiro do que na produção do filme.
Só é filmado o roteiro que consegue unir talentos, co-produções e acordos de distribuição que garantam reais chances de retorno. Nesses países, a relação entre roteiros desenvolvidos de forma remunerada e roteiros filmados é em torno de 10 para 1.
No Brasil, praticamente só são remunerados - e ainda assim a posteriori - os roteiros que serão filmados, ou seja, a relação é quase 1 para 1. Os outros roteiristas trabalharam e jamais serão remunerados.
Boa parte do sucesso da teledramaturgia brasileira vem do investimento que as redes de tv fazem em seus roteiristas. Ao contrário do cinema, na televisão o autor-roteirista é valorizado criativa e financeiramente.
Alguns filmes de cinema são exceções que confirmam a regra. "Cidade de Deus" e "Se Eu fosse você" se destacam por valorizar a figura do roteirista e foram grandes sucessos. Do policial à comédia romântica, do filme independente ao filme industrial, está provado que o sucesso de um filme depende da valorização do profissional de roteiro.
Porque recomendamos a não participação no edital
Foi visando despertar a sociedade e todo o setor audiovisual para esta questão que a diretoria da A.R. decidiu recomendar a seus associados que não participem do edital do Minc
Não visamos com esta medida inviabilizar o edital ou ser contra sua existência. Temos plena consciência de que, no Brasil, a categoria de roteiristas profissionais ainda não tem a força que apresenta em outros países. E estamos conscientes de que o Edital vai continuar gerando grande procura, pois é imensa a quantidade de aspirantes a roteiristas que sonham com um prêmio para realizar seu trabalho. Consideramos que o edital de Desenvolvimento de roteiros do Minc é muito adequado para estreantes .
A decisão da diretoria da AR objetiva apenas deixar claro que os roteiristas profissionais que compõem a entidade não se sentem contemplados por esse edital, nem por nenhuma outra política pública da Secretaria do Audiovisual.
Explicitamos assim que não conseguimos nenhum apoio da Secretaria do Audiovisual para as propostas da categoria. Por fim, queremos deixar claro que estamos abertos ao diálogo e ansiosos por contribuir para a melhora do nosso cinema. Nossas propostas podem ser lidas no site da entidade, www.ar.art.br ou abaixo.
PROPOSTAS DA Associação de Roteiristas
A Associação de Roteiristas elaborou propostas que foram entregues ao Conselho da Secretaria do Audiovisual. Infelizmente, devido ao já expresso desinteresse da Secretaria em políticas para a profissionalização dos roteiristas, a pauta nunca foi debatida no Conselho.
Esclarecemos que não reivindicamos a imediata implantação de todas as idéias expostas abaixo, pois sabemos da dificuldade de implementar novas políticas. Desejamos apenas que o caminho comece a ser trilhado e nossas idéias entrem na pauta dos debates do governo e dos outros profissionais do audiovisual.
Algumas soluções
A médio prazo:
- Aumento efetivo dos editais para desenvolvimento.
Iniciar um estudo aprofundado para definir o quanto deve ser investido em desenvolvimento. Este estudo poderá subsidiar a criação de políticas reais para este fim.
Um exemplo:Sugestão para calcular um valor de investimento:
Fazer estudo para avaliar percentualmente quanto se investe em desenvolvimento e quanto se investe em produção nos editais públicos brasileiros.
- Calcular uma percentagem de 10% para investimento em desenvolvimento. É o mínimo. O custo de desenvolvimento de um único filme gira em torno de 10% do projeto. Em países de indústria forte é comum desenvolver 10 projetos a mais que o filme. Dessa percentagem, resulta que as verbas para desenvolvimento e para produção sejam equivalentes, aproximadamente. Estamos propondo dez vezes menos.
- Garantir produtos finais para os prêmios de desenvolvimento. Exemplo: o roteiro não filmado pode virar uma história em quadrinhos. Ou um romance. Outro , um livro de reportagens. Não ser obrigatório mas ter esta possibilidade apresentada.
Soluções Imediatas:
No padrão de editais
- Garantir que o edital se volte para roteiristas profissionais que não pretendam dirigir o próprio filme. Isso é uma forma de corrigir a distorção atual, em que a maioria dos prêmios de roteiro é destinada a diretores que sub-contratam um roteirista. E é uma forma de valorizar o profissional que pretende apenas escrever o filme. Pode até mesmo ser um profissional que também seja diretor. Mas nesse premio, ele não poderá dirigir o próprio roteiro.
- Aumento do edital
- Abrir um novo edital com mais dez prêmios de 80.000,00 reais, voltados para profissionais de roteiro audiovisual.
- Manter o atual edital (com as alterações já listadas acima), mas voltado exclusivamente para roteiristas iniciantes, no valor de 50.000,00 , e aí contemplando as políticas de regionalização
Formação
- Editais de desenvolvimento terem também política de formação. Às vezes, há boas idéias, mas não estão trabalhadas. Fazer oficinas para formatação dos projetos.
Consultorias
- O desenvolvimento deve ser acompanhado, com a contratação de Script Doctor. Ou seja, consultores experientes que acompanharão a criação do roteiro.
Venda dos Roteiros
Para os roteiros não ficarem engavetados
- Criação de um banco de roteiros para pesquisa de produtores.
- Pitching público dos vencedores.
- Pitching dos roteiros premiados.
- Prêmio especial para a produção de roteiro premiado no concurso de desenvolvimento, promovendo sua realização.
Prêmio especial de produção
Por que ter um prêmio especial para produção de roteiro premiado no concurso de desenvolvimento de roteiros do Minc?
a) No edital, os roteiros são desenvolvidos, mas não encontram seu mercado de produção.
b) Isto apenas reproduz uma anomalia do mercado brasileiro. Essa anomalia é: não existe compra de roteiros por produtores. Não existe o SPEC, o roteirista que faz seu roteiro independente e consegue vender.
c) Esse modelo do roteirista criador (associado ao produtor que contrata roteirista) é importante na indústria de Hollywood e em cinematografias de países desenvolvidos. No Brasil, o roteirista de cinema ainda é assistente de dramaturgia do diretor/autor.
Este modelo de diretor que define o trabalho é um dos modelos possíveis para produção cinematográfica. Mas devem existir outros. Entre eles, os filmes de roteirista.
Como?
Obviamente o Minc não pode obrigar um produtor a comprar roteiros. Mas pode ajudar a corrigir esta distorção. Pode educar os produtores a comprar roteiros. Como fazer isso? Basta ampliar o EDITAL DE DESENVOLVIMENTO DE ROTEIROS e ajudar os roteiristas a vender seus roteiros.
Para tal, duas idéias:
a) promover um pitching de roteiros em que os dez premiados (ou os que não serão produzidos de imediato) apresentam e expõem seu roteiro aos produtores;
b) Para motivar ainda mais, o Minc dará um prêmio especial para a produção do filme. Seria um prêmio de mais ou menos 600 mil reais (valor do prêmio da Petrobras, possível parceiro).
Participariam deste concurso apenas projetos vinculados aos roteiros desenvolvidos no concurso de desenvolvimento de roteiros do Minc.
Aí os produtores todos vão querer comprar os direitos dos roteiristas. Pois nesse edital haverá apenas dez projetos para dois prêmios. Isso motivará os produtores a irem ao pitching e tentarem fechar acordo com o roteirista.
Mesmo os oito que não ganharem o prêmio vão se beneficiar, pois terão produtores que já estarão tocando os filmes deles.
Ajudaria a diminuir o problema exposto antes, o da ausência do SPEC.
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