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Entrevista com Marcilio Moraes - Presidente da AR (4)
Cena 1: "O crime da Gávea", seu primeiro romance, foi muito bem recebido pela crítica e pelo público. O lançamento do livro coincide com sua saída da TV Globo, onde você esteve por quase 20 anos. Trata-se apenas de uma coincidência ou poderíamos dizer que escrever "para/na/enquanto" Globo é muito diferente do que escrever fora dela? O que mudou? Hoje você se sente mais livre ou mais apto a desenvolver seus próprios projetos? Enfim, como é a vida "do outro lado"?
Marcílio: Terminei de escrever e lancei o livro depois que saí da Globo. Um pouco por coincidência, um pouco porque me senti mais livre para desenvolver projetos que há muitos anos eu vinha postergando. Na verdade, eu estava insatisfeito na Globo, não pelo salário, mas por não encontrar condições de desenvolver idéias novas. Eu não queria fazer o que eles queriam que eu fizesse e eles não me davam espaço para fazer o que queria, então...
Embora eu considere a literatura a mais gratificante das atividades que um escritor pode desenvolver, porque é apenas ele e o leitor, sem intermediários, me sinto frustrado porque não há praticamente opções de trabalho em televisão fora da Globo.
Neste anos de 2004 estão surgindo várias promessas de produção independente e de intenções da outras emissoras de exibir teledramaturgia nacional. A AR tem se posicionado a favor e envidará todos os esforços para que isso se realize.
Para o caso de algum desses produtores e exibidores estar lendo esta entrevista, deixo aqui a lição fundamental: valorizem ao máximo os autores e roteiristas, ou amargarão o fracasso. O grande segredo da Globo foi constituir e manter um corpo de autores e roteiristas de qualidade.
Cena 1: Há quem diga que felicidade é alívio. Você concorda com isso?
Marcílio: A pergunta é muito ampla. No que respeita ao trabalho, é muito gratificante enfrentar novos desafios. Nada pior que a mesmice, a burocratização, o rame-rame. Então, quando saímos de um lugar onde estes vícios estavam instalados, ficamos aliviados e, logo, mais felizes (se bem que, muitas vezes, com os bolsos mais vazios).
Cena 1: Quais são seus projetos em literatura e dramaturgia? Você tem planos de escrever para o cinema?
Marcílio: Estou escrevendo outro romance, também pretendo reunir os contos que escrevi ao longo da vida numa antologia, tenho duas peças inéditas, em busca de patrocínio e pretendo escrever um roteiro para cinema. Idéias não faltam. Também tenho sinopses para novelas (olha aí, produtores!), seriados, minisséries e o que mais quiserem.
Cena 1: Você acredita num "modelo" para escrever roteiros, como o do Syd Field, por exemplo? Em televisão, qual seria o "modelo"?
Marcílio: Não acredito em modelos para quem escreve. Uma vez assisti a uma conferência do Syd Field na Globo. De televisão, especialmente de novelas, posso garantir que ele não entende nada.
Pode-se dizer que há um “modelo” global de fazer novelas, mas na verdade trata-se de alguns princípios empresariais, ditados pelos interesses da publicidade. Em termos estritos de dramaturgia, as diferenças entre os autores são muito grandes e visíveis.
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