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Entrevista com Marcilio Moraes - Presidente da AR (5)
Cena 1: Está havendo uma "onda" de produção de siticom (ou, ao menos, uma "vontade" de produzi-los) nas emissoras abertas de tevê. Como você vê essa "onda" num país que tem como um de seus produtos de exportação a telenovela? A siticom vai "tomar espaço" da novela ou vai se abrasileirar e se tornar um novo produto de exportação? Ou o quê?
Marcílio: Essa onda é pura subserviência. Os escritores brasileiros sempre souberam fazer comédias. Esta sitcom americana é um formato que funciona bem, com aquelas risadinhas. Seria interessante experimentar sem o eco de riso, para ver como se saem.
Ao invés de tentarem produzir sitcons americanas aqui, os produtores devem pedir aos autores nacionais que escrevam comédias. Garanto que não vai lhes faltar material. Veja “A Grande Família”, há 30 anos faz sucesso.
Quanto ao espaço da novela, este é cativo. Pode até vir a se reduzir um pouco ( não para sitcons), mas jamais será ocupado. O público gosta. Precisa é ter mais alternativas.
Cena 1: De que forma tevê e cinema se aproximam e se diferenciam? Até que ponto a linguagem da tevê se constitui como linguagem própria? O que cabe na tevê e não cabe no cinema?
Marcílio: São linguagens muito diferentes e é bom que continuem assim. Vejo com preocupação a estética da televisão influenciar o cinema. Não é bom que sejam os mesmos atores que atuem na televisão, no cinema e no teatro; que sejam os mesmos diretores; os mesmos enquadramentos, a mesma luz, a mesma temática. Pela sua própria natureza, o cinema exige uma linguagem mais ousada, menos óbvia, exige temas mais instigantes, mais incisivos, mais críticos, mais questionadores. A televisão, um eletrodoméstico que funciona dentro da sua casa, não pode ir muito além de um entretenimento simples e fácil.
Cena 1: Por que até hoje a televisão é considerada um veículo "menor" quando comparada ao teatro e ao cinema?
Marcílio: Eu não colocaria a questão em termos de tamanho ou de qualidade. São coisas diferentes, funções diferentes, estéticas diferentes, objetivos diferentes. E é bom que assim seja.
Cena 1: Muita gente ainda acha que a AR é uma associação de roteiristas da TV Globo. Como mudar essa visão? De que forma a AR pode atrair roteiristas de cinema e roteiristas independentes/autônomos, inclusive de outras mídias?
Marcílio: A confusão da AR com a Globo é natural, na medida em que a associação foi criada por roteiristas que trabalhavam na Globo. E trabalhavam na Globo porque a Globo é a (quase única) empregadora no ramo.
Esta visão vai mudar na medida em que o mercado se ampliar, como está se ampliando no cinema, por exemplo. Temos vários roteiristas de cinema na AR, mas são ainda poucos em relação ao total. Mas em breve quem está fora vai sentir necessidade de se aproximar.
Muita gente desconfia que a AR seja uma entidade ideológica. Precisamos explicar que não é nada disso. Somos uma associação profissional, livre, sem vínculos com governos, partidos, empresas, sindicatos oficiais, ou o que seja. Quando todos se derem conta de que é assim, e de que só assim poderão garantir sua liberdade de trabalho e seus direitos, virão para a AR.
Cena 1: Quantos roteiristas a AR tem hoje? Desses, quantos são funcionários da TV Globo?
Marcílio: A AR tem cerca de 150 associados. Não sei exatamente, talvez uns 60 ou 70 sejam funcionários da TV Globo.
Cena 1: Para finalizar, diga o que você acha da televisão brasileira de hoje. Como analisa a programação, as tendências de mercado e as perspectivas de invenção/criação da tevê no país?
Marcílio: Falar da televisão brasileira é falar quase exclusivamente da Globo. Este o grande problema.
A Globo é uma excelente empresa, produz magníficos programas.
A questão é que, por melhor que seja, só ela produz, só ela é o mercado. Por mais que diversifique, sempre será limitada. Para um país com as dimensões do Brasil, para um público potencial de 150 milhões de pessoas, tem que haver pelo menos 3 grandes redes de tv aberta, todas produzindo conteúdo e dramaturgia nacionais, além das emissoras regionais, também exibindo produção local.
Quando for assim, se poderá dizer que temos uma televisão democrática, aliás, se poderá dizer que o Brasil começa a ser verdadeiramente democrático. Porque democracia pressupõe diferentes enfoques, diferentes visões. Se você assistir ao Jornal Nacional verá que é praticamente um jornal oficial, chapa branca, quase uma Voz do Brasil. Por que? Porque a Globo é tão poderosa que não pode ter um jornal indepentende, crítico em relação ao poder oficial.
Se tivermos um Jornal Nacional crítico em relação ao governo, pode acreditar que um dos dois vai cair. O povo brasileiro está a exigir mais do que expressões sutis dos locutores e silêncios expressivos para comentar as notícias. Há que ter várias opiniões, há que ter divergência, há que ter na televisão brasileira, no horário nobre, jornais de oposição e jornais de situação e não apenas o respeito subserviente.
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