| Entrevista com Marcilio Moraes - Presidente da AR (1)
por Duba Elia, Iara Sydenstricker e Mauro Alvim
Cena 1: Em entrevista ao jornal baiano "A Tarde" (5 de outubro de 2003) você ratifica as palavras de Humberto Eco quando este afirma que folhetim é consolo. Que tipo de "consolo" o Brasil real de hoje pode esperar do Brasil que se constrói na tevê? Ou, o que a realidade brasileira está "pedindo" da teledramaturgia?
Marcílio: A afirmativa de que a principal função da literatura de folhetim é “consolar”, a meu ver, é feita para acentuar que a função não é “crítica”. O público não acompanha uma telenovela ao longo de meses por causa de uma eventual crítica social, de costumes ou o que seja. Acompanha para satisfazer determinadas fantasias que o autor estimula e para, no final, ver reafirmados os valores em que acredita e punidos os valores que rejeita, ou seja, para ver o bem vencer o mal, e, assim, se “consolar”das frustrações da vida real, onde isso não acontece.
Não sou contra esta dramaturgia, pelo contrário. A capacidade dos dramaturgos brasileiros para fazer este tipo de texto é mundialmente reconhecida. Não é à toa que as novelas brasileiras fazem tanto sucesso. No entanto, acho que há uma preponderância excessiva, quase uma exclusividade, de telenovela na televisão brasileira. E de um tipo apenas de telenovela, que é a da Globo, que por melhor que seja representa apenas uma determinada opção estética.
O que eu acho que a realidade, ou seja, o público, está a exigir é, de um lado, diferentes estéticas nas telenovelas, ou seja, novelas feitas de outro jeito, por outras produtoras e emissoras; de outro, diversificação de formatos e de enfoques, o que significa maior presença de teledramaturgia crítica, instigante, inovadora, capaz de falar, com qualidade, a linguagem dos setores mais populares da audiência. Isto só vai acontecer quando houver concorrência, e não monopólio, na televisão; quando houver regionalização da produção; quando houver produção independente forte, etc.
Cena 1: E o que dizer dos teledramaturgos e roteiristas de televisão de modo geral? Que "consolo" podem esperar do mercado brasileiro de produção televisiva? Quais são as perspectivas desse mercado?
Marcílio: Para não perder a oportunidade, nem o hábito, vou responder com uma provocaçãozinha. O que está acontecendo no Brasil de hoje é uma folhetinização da vida política. As maiores figuras da vida pública se comportam como personagens de telenovela, envidando todos os esforços para emocionar o público, seja com discursos melosos, seja com choradeiras, enquanto procuram vilanizar seus adversários e se fazerem de bonzinhos, prometendo, para depois das agruras (que eles mesmo provocam) um final feliz para o povo.
Acho que o maior consolo que os teledramaturgos e roteiristas podem esperar é que a tarefa de satisfazer o público ávido de folhetins se restrinja aos profissionais do ramo.
Este é o ponto de partida para melhorar o mercado de trabalho, que hoje é extremamente restritivo. Já fiz as contas e concluí que no Brasil, para um público potencial de 150 milhões de pessoas, trabalham no horário nobre da nossa televisão apenas 15 autores e roteiristas por ano, que são aqueles que fazem as novelas da Globo.
Acredito que este panorama vai se modificar a partir de 2004. Pelo que sei, há produtoras independentes se dispondo a fazer teledramaturgia e emissoras dispostas a apostar na produção nacional. Só espero que a inexperiência não leve à frustração dessas iniciativas, como ocorreu na extinta Manchete e em tentativas do SBT. Nesses casos, o equívovo, a meu ver, foi não darem a devida importância ao autor. Teledramaturgia, especialmente novelas, são obras em que o escritor é a figura mais importante. Tentar modificar isto é suicídio.
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