Entrevista Newton Cannito para o site da AR
Newton Cannito é um nome respeitado na televisão e no cinema do Brasil. Não só pelo seu trabalho como roteirista, mas também pela sua atuação em defesa da democratização dos processos de produção do audiovisual. Newton também ensina o ofício de roteiros e nessa entrevista revela a importância da formação cultural e da vivência real no processo criativo.
Patrícia Oriolo: Newton, antes demais nada gostaria que você falasse como foi a sua trajetória profissional.
Newton Cannito: Vou pular o começo, de dono de boteco e outros bicos tupiniquins que foram importantes em minha formação humana. Depois fui professor de história. Depois crítico de cinema e televisão. Fui editor da revista Sinopse e colaborei para a Folha. Aí virei roteirista e professor.
Em roteiro fiz a terceira temporada do seriado “Cidade dos Homens”. Em cinema fiz o longa “Quanto Vale ou é por Quilo?”, de Sergio Bianchi. Ano passado fiz mais dois longas: “Um dia”, de Jefferson De; e “ O mistério da Estrada de Sintra”, de Jorge Paixão da Costa, uma co-produção Brasil Portugal. Ambos estão sendo filmados nesse momento e devem ser lançados em 2007. No momento estou escrevendo mais dois longas.
Patrícia Oriolo: Você tem um trabalho muito forte ligado à democratização da TV brasileira. Você sinceramente acha que um dia a TV no Brasil será democrática?
Newton Cannito: Não existe esse tipo de extremo. Ser ou não ser democrática. É tudo questão de ser mais ou menos democrática. E tem que falar em audiovisual como um todo, não só televisão.
O audiovisual brasileiro hoje é muito pouco democrático. Muitos poucos produzem, a renda é muito concentrada. Observe que a democracia que eu falo é também democracia econômica, é distribuição de renda. Mas aconteceram coisas nos últimos anos que tornaram o audiovisual brasileiro um pouco mais democrático.
Estamos todos nós – diretores, produtores, roteiristas - lutando para avançar mais. Fora a parte de lei, acredito muito na iniciativa individual, no empreendedorismo de nossos realizadores. É isso que vai pressionar a legislação. Acho que cada produtor independente que consegue veicular seu produto, ajuda na democratização. Cada vídeo de celular veiculado ajuda na democratização. Mas a luta nunca termina. Não é igual a um filme que chega ao final feliz ou triste. É uma luta permanente.
Patrícia Oriolo: O que falta para a produção independente ganhar força?
Newton Cannito: Por parte do estado falta apoio financeiro e legislação. Apoio financeiro também a empresas, não apenas a produtos (filmes, séries, etc). Deveria existir uma linha de apoio do BNDES, à pequenas e médias e pequenas empresas produtoras de vídeo e televisão. As emissoras que existem hoje surgiram assim, é necessário ter apoio continuado aos novos empreendedores. Por parte dos produtores falta essa consciência de que a produção não pode ser tão individual, que tem que ser continuada e em série. Mas a nova geração de produtores já pensa assim. Isso nos dá esperança de um futuro mais democrático.
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