Entrevista Newton Cannito para o site da AR (2)

Patrícia Oriolo: Como você avalia a implantação da TV Digital no Brasil e como acha que será o papel do roteirista nesse novo cenário?

Newton Cannito: Temos uma oportunidade única de democratizar a televisão e abrir novos mercados. A discussão sobre os padrões é uma das discussões, a mais urgente, mas não é única.

Temos que nos preocupar com os padrões na medida em que a tecnologia acaba influindo nos modelos de negócios. Temos que priorizar modelos de negócio que abram espaço ao empreendedorismo. Tudo que eu disse acima, se relaciona com isso.

Quanto aos roteiristas é necessário, urgentemente pensarmos também em linguagens para essa nova mídia. Ela favorece a interatividade, os jogos e novos formatos. Temos que estudar isso urgente e aprender a ser criativo para essa nova mídia.

Patrícia Oriolo: Gostaria que você falasse sobre o IETV.

Newton Cannito: O IETV surgiu há cinco anos. Eu e Nelson Hoineff sentíamos falta de debates estéticos sobre a televisão. Fizemos encontros de televisão, realizamos anualmente o Seminário IETV Esso de Telejornalismo e no ano passado realizamos o I Festival Internacional de Televisão.

Acreditamos que é necessário conhecer tendências estéticas para recriar o audiovisual brasileiro. Isso passa pela pesquisa histórica e pelo acompanhamento da produção internacional. Mais sobre o IETV no site www.ietv.org.br

Patrícia Oriolo: Por que o livro “Manual do Roteiro” é o “Manuel” de todos os outros?

Newton Cannito: Porque não caga regras. O livro que eu escrevi junto com Leandro Saraiva não universaliza um único modelo de escrever roteiros. Mais do que regras, fazemos perguntas para o roteirista criador. Discutimos todos os tipos de linguagem, desde Vertov até Fernando Meirelles. Abrimos a mente do leitor, para ele criar o filme que queira, sem se prender a supostas regras universais.

Patrícia Oriolo: Você é um profissional que ensina o ofício de escrever roteiros para cinema e televisão. Qual é a sua principal preocupação na hora de ensinar?

Newton Cannito: Ter repertório estético é o primeiro passo. Cada criador tem que ter um banco de linguagens na sua mente. Minha preocupação é potencializar os talentos individuais. Há pessoas que tem mais talento para um tipo de filme do que para outro tipo. Há pessoas que são melhores para estrutura, outros melhores para diálogo. Cada aluno deve se descobrir, descobrir seu talento individual. É isso que me dá prazer em ensinar.

Patrícia Oriolo: Para muitos Syd Field tem uma “receita de bolo” que dificilmente é quebrada na narrativa cinematográfica. Como você estimula a criação além da “receita de bolo”?

Newton Cannito: Apresentando em aula vários tipos de linguagem e discutindo com os alunos as inúmeras possibilidades da criação audiovisual. Além disso, eu pessoalmente, gosto muito de pesquisa de campo. Acho que a criação se renova em contato com a realidade. Gosto de motivar os alunos a viverem de verdade e criarem a partir da vida. A primeira coisa que um artista deve ter é gosto pela vida, é amor por seus personagens.

 

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