Entrevista Newton Cannito para o site da AR (4)

Patrícia Oriolo: Como foi a criação do roteiro “Acompanhantes”? Quantos tratamentos o texto teve?

Newton Cannito: “Acompanhantes” é minha primeira peça de teatro. É inteiramente baseada na vida de amigas minhas que vivem ganhando uns trocos, na mais antiga profissão do mundo. São meninas maravilhosas, adoro elas.

A peça vai estrear em agosto. Teremos Mel Lisboa e lançaremos a Bruna Surfistinha como atriz. Até agora foram 3 tratamentos, mas ainda vou mexer na filmagem. Comecei o roteiro do longa mas parei. Será bem diferente da peça. A peça são monólogos para o público. O longa será inspirado no filme “Domésticas”, obra do Fernando Meirelles, que adoro.

Patrícia Oriolo: Como nasceu a história do filme “Quanto vale ou é por quilo?”?

Newton Cannito: Com Sergio Bianchi aprendi a criar a partir de conceitos. Queríamos traduzir Machado de Assis para os dias de hoje. Partimos do conto “Pai contra Mãe” e fomos estudar. Fizemos pesquisa de campo em Organizações não governamentais e lemos muito. Eu e Eduardo Benaim, o outro roteirista, lemos muito sobre a sociedade brasileira, enfocando em como a escravidão continua nos dias de hoje. Lemos Roberto Schwarz, Vilma Areas, Ina Camargo Costa, Cristovão Buarque. Eles foram nossas fontes de inspiração.

Patrícia Oriolo: Você escreveu um roteiro inspirado na música Tropical Melancolia de Max de Castro. Como foi essa “adaptação”?

Newton Cannito: Você fala do “Um Dia”, do Jéferson De. Não foi inspirado diretamente na música de Max de Castro, aliás, uma música maravilhosa. Ela deu o clima do filme, mas não a história. A história foi inspirada em pessoas reais, em moradores do Capão Redondo. É um filme sobre os caminhos da juventude da periferia no mundo de hoje.

Patrícia Oriolo: Como você gostaria que fosse o cenário ideal do mercado de produção audiovisual brasileiro?

Newton Cannito: Voltamos às primeiras perguntas. Gostaria que fosse mais democrático. Eu teria mais coisas para assistir e mais empregos. Quero mais gente fazendo, pois cansei de ver os mesmos filmes.

Tem muitos lados do Brasil que não estão aparecendo na tela. Tem também que ser mais meritocrático. Fale-se o que quiser da televisão, da telenovela, mas ao menos ela é meritocrática. Só os grandes autores permanecem.

O cinema tem muita gente ruim que continua produzindo, isso é péssimo, é jogar fora o dinheiro público do contribuinte. Quem é ruim para ser diretor ou roteirista deverá achar outros caminhos, precisamos de muitas outras funções, tem lugar para todos.

Aí alguém vai dizer, mas como avaliar isso? É fácil. O sucesso de público é uma das medidas. O respaldo crítico outra. A capacidade de gerar polemicas outra. E devem existir outras, que elas surjam. Não existe um único modelo de medição do talento, mas é possível medir. O que não dá é para não medir e perpetuar a incompetência.

 

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