Entrevista com Renê Belmonte (4)

Patrícia Oriolo - Você se importa que os atores coloquem "cacos"? Você escreve pensando no improviso?

Renê Belmonte - Depende. Nunca escrevo pensando em improviso, e na dúvida eu diria que os cacos mais atrapalham do que ajudam, porque muitas vezes não só não funcionam como ainda acabam com o timing da cena. Isto dito, já vi muitos cacos excelentes, que só contribuíram para a história. Ou seja, depende muito do talento do ator e de sua intimidade com o texto para fazer o caco funcionar.

Patrícia Oriolo - Você também trabalhou na adaptação para o cinema brasileiro de um grande sucesso mexicano "Sexo, Pudor e Lágrimas", que no Brasil virou, o filme "Sexo, amor e traição". Como é nacionalizar um texto? Qual foi o seu processo para essa adaptação?


Renê Belmonte - Havia um consenso de que o filme original, Sexo, Pudor & Lágrimas, resvalava muito fortemente para o melodrama, e era mais conservador do que achávamos necessário. Mais do que isso, era para ser um filme do Jorge Fernando, por isso o roteiro tinha que ser mais leve, mais engraçado, e mais picante do que o original. O processo de trabalho foi simples: identificar os arcos dramáticos de cada personagem, adequar seus perfis e suas motivações de modo que eles soassem mais brasileiros, aliás cariocas, e conduzir a trama a partir daí.

Patrícia Oriolo - Você trabalha com muitos parceiros, qual é o seu método para escrever com outras pessoas?


Renê Belmonte - Para escrever junto precisa de confiança e sintonia, estar vendo a história com os mesmos olhos. Em geral, discute-se, discute-se muito. É só bate-bola, enquanto vamos encontrando a história. Depois, ou escaletamos juntos ou um desenvolve a evolução da história – uma espécie de sinopse mal escrita – e o outro escaleta a partir disso. Isto feito, cada um pega suas cenas pra escrever os diálogos, e depois troca para um mexer nas cenas do outro, até um ponto em que não é mais possível saber quem escreveu o quê.

Patrícia Oriolo - Que tipo de coisa que você não gosta que mexam no seu texto?

Renê Belmonte - Em geral sou muito desprendido com meu texto, se duas pessoas diferentes reclamam da mesma coisa já é suficiente para que eu ache que tem alguma coisa errada. Mas gosto de fazer as mudanças eu mesmo, me incomoda descobrir que alguma coisa foi alterada sem que eu soubesse.

 

 

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