Entrevista com Ricardo Linares (4)


Patricia Oriolo: Quanto tempo você demorou para preencher nas fichas que pediam a sua profissão a palavra roteirista? Como aconteceu?

Ricardo Linhares: Eu não separo o escritor das demais profissões. Nós não vivemos de brisa, escrevendo apenas em nome da arte ou para exorcizar fantasmas pessoais. Trabalhamos para sobreviver.

Precisamos de contratos, salários, garantias. Escrever roteiros é uma profissão como outra qualquer, como advogar ou pilotar aviões, e tem que ser respeitada e reconhecida. Mas todos nós sabemos como é complicado escrever nas fichas Profissão: Escritor. Até recentemente, eu escrevia Profissão: Jornalista, afinal, sou formado em Jornalismo. Mas se nunca exerci o jornalismo, então por que vou escrever jornalista? Agora, escrevo Profissão: Escritor.

Não tenho mais a insegurança de antes, ao tirar documentos, por exemplo, ou ao abrir conta em banco, de me intitular escritor e ficar preocupado com a reação dos outros, que poderiam achar que escritor vive de bicos, não é uma “profissão respeitável, séria”.

Acho que essa segurança faz parte de uma conscientização maior de categoria profissional que está começando a ganhar corpo agora. Mesmo aos trancos e barrancos, o mercado está começando a se ampliar para nós, na televisão, no cinema, nos institucionais.

Nossa profissão está sendo mais divulgada. Nossos profissionais estão sendo mais disputados e reconhecidos. Isso melhora a auto-estima profissional e os nossos salários. Precisamos regularizar a nossa profissão de escritor e termos todo o amparo legal, a que temos direito como pagadores de impostos.

Patricia Oriolo: Você trabalhou em dois programas antológicos da TV brasileira “Viva o Gordo” e “Caso Verdade” fale um pouco dessas experiências?

Ricardo Linhares: Foram duas experiências profissionais fundamentais na minha formação. Caso Verdade virou Tele-tema quando as histórias baseadas na vida real perderam o impacto da novidade. Passou a ser totalmente ficção. Foi um aprendizado excelente para escrever novela.

Ter uma idéia com fôlego para cinco capítulos, distribuir a trama ao longo da semana, pensando nos ganchos, misturando as paralelas, enfim, era como pensar numa novela, guardadas as devidas proporções, claro. Lamento tanto que não façam mais programas assim!

Nós aprendíamos muito escrevendo e vendo o programa no ar poucas semanas depois. Aprendíamos na prática, avaliando o resultado. Nada tinha de teórico, de escrever e deixar na gaveta, analisar a história apenas no papel. Caso Verdade e Tele-tema formaram inúmeros escritores que hoje estão trabalhando a pleno vapor na telinha.

São tantos, que seria injusto mencionar um ou outro. Viva o Gordo também foi um grande e prazeroso aprendizado com dois mestres: Max Nunes e Hilton Marques. Aprendi o timing da piada no ar, o uso do bordão, a duração do esquete.

O programa era inteiramente gravado às segundas-feiras, das duas da tarde até a madrugada. E a equipe de redatores acompanhava as gravações, sob o comando de Cecil Thiré. Participávamos dos ensaios, alterando na hora de gravar o que fosse necessário para o esquete ficar mais eficiente.

Muitas idéias e piadas surgiam no calor da gravação, com os improvisos de Jô Soares. Os redatores também participavam das reuniões de produção, às quartas-feiras, com os produtores, figurinistas, cenógrafos, sonoplastas, enfim, a equipe artística. E nós dávamos palpite em tudo, ajudando a escolher os atores mais apropriados de cada esquete, os objetos do cenário e a palheta de cores do figurino.

Era como uma pequena central de produção, onde vivíamos semanalmente todas as etapas da produção até o programa ir ao ar.

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