Entrevista com Ricardo Linares (5)

Patricia Oriolo: Como você avalia a modificação no perfil dos roteiristas de televisão nesses últimos anos? Que tipo de profissional o mercado exige?


Ricardo Linhares: Acredito que o mercado está exigindo dos profissionais, principalmente dos que estão ingressando agora, um bom conhecimento sobre as novas mídias. No mínimo, uma boa curiosidade para acompanhar as novidades.

A maioria dos profissionais que está há mais tempo no mercado tem certa dificuldade em se adaptar às inovações tecnológicas. Acho que esse pode ser o grande diferencial da nova geração, que pode abrir muitas e inesperadas portas. Em termos mais de televisão, eu sinto falta de programas onde novos profissionais possam começar.

Citei como exemplo o Caso Verdade e o Tele-tema. Antes, havia o Caso Especial, na Globo. No SBT também houve uma espécie de teleteatro, me foge o nome agora. Durante anos tivemos o Você Decide e o Brava Gente. Sem falar nos seriados, como Plantão de Polícia e Malu Mulher. Todos esses programas tinham equipe fixa, mas também estavam abertos a novos roteiristas.

Eu comecei neles e conheço dezenas de profissionais que também começaram. Esses espaços não existem mais. As portas de acesso às televisões abertas diminuíram. Tirando a Globo e a Record, que outra emissora investe regularmente em teledramaturgia?

Há os canais pagos, que estão começando, ainda muito timidamente, a investir em conteúdo nacional. Talvez aí esteja o futuro da nossa profissão, com certa segmentação de mercado. Mas tudo vai depender de haver investimento. O melhor exemplo vem dos Estados Unidos.

A quantidade de canais pagos, abertos, produtores independentes, canais sedimentados, enfim, o leque é enorme e está aberto a todo tipo de programa, dos mais convencionais aos experimentais.

Por que há esse mercado? Porque há uma economia rica como suporte. Porque há uma população grande e razoavelmente escolarizada para consumir o tipo de programa que mais lhe agrada. Não há como o mercado de televisão crescer sem o país crescer economicamente e a população tiver mais acesso à educação.

Patricia Oriolo: Como aconteceu a sua parceria com o Aguinaldo Silva?

Ricardo Linhares: Durante uma parte do curso de telenovela da Casa de Criação Janete Clair, os alunos eram divididos em grupos de dois ou três. E uma das nossas tarefas era fazer uma espécie de acompanhamento de novelas que estavam no ar. Víamos os capítulos no ar, líamos os textos e participávamos das reuniões da equipe da novela, como ouvintes. Coube ao meu grupo, Roque Santeiro, um espetacular sucesso.

Durante algumas semanas, participei das reuniões de criação de Aguinaldo, na casa dele, com sua equipe de escritores, nosso presidente Marcílio Moraes e Joaquim Assis. Não é necessário dizer como foi uma experiência marcante para um jovem e inexperiente roteirista acompanhar uma parte do processo de criação de um escritor já consagrado como Aguinaldo. Mas isso durou apenas algumas semanas.

Durante o curso, nós escrevíamos bastante e entregávamos o material para os responsáveis pela oficina. Ao mesmo tempo, eu continuava escrevendo Tele-temas. Na mesma época, nosso colega Roberto Farias estava preparando uma minissérie forte e polêmica, A Máfia no Brasil. E a Casa de Criação recomendou o meu trabalho a ele. Roberto me chamou para colaborar na minissérie, que foi um grande sucesso.

Enfim, eu estava sempre escrevendo alguma coisa, que era lida, analisada. As pessoas começavam a conhecer o meu trabalho. Certa tarde, encontrei Aguinaldo nos corredores da Casa de Criação. Ele havia escrito a sinopse de O Outro e ia participar de uma reunião para discutir detalhes da história.

Conversamos e ele me disse que havia lido alguns textos que eu havia entregue, como exercícios do curso. Eu fiquei muito feliz de saber que ele tinha lido e gostado. Alguns dias depois, ele me convidou para ser seu colaborador na novela. Isso aconteceu por volta de 1986/1987.

A partir daí, fizemos vários trabalhos juntos. Aguinaldo é meu mestre. Excelente escritor, ficcionista brilhante e generoso companheiro de trabalho. Eu devo a ele o meu ingresso e a minha permanência no mundo das novelas.

 

 

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TRABALHOS NA TV:
Miniséries
A Máfia no Brasil
O Tempo e o Vento
Anos Rebeldes
 
Novelas - (co-autor)
O Outro
Fera Radical
Tieta
Lua Cheia de Amor
Dono do Mundo
Pedra sobre Pedra
Fera Ferida
Malhação
A Indomada
O Campeão
Porto dos Milagres
Paraíso Tropical
 
AUTOR
Meu Bem Querer
Agora é que são Elas
 
SUPERVISOR
Malhação ( Ano 1)