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Entrevista com Ricardo Linares (7)
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| Ricardo Linhares |
Patricia Oriolo: Você já adaptou duas obras de Jorge Amado para a televisão, Tieta e Porto dos Milagres. Quais as principais características que se deve levar em consideração na hora de adaptar uma obra literária fechada, para uma obra aberta como uma novela?
Ricardo Linhares: A obra literária serve de ponto de partida, de referência inicial. Quando é possível, aproveitamos os personagens principais e a espinha dorsal do livro. Depois, mudamos tudo. Se não mudar, não temos uma história com fôlego para mais de 180 capítulos.
Nas minisséries, como no cinema, às vezes é diferente. Em alguns casos, é possível ser um pouco mais fiel à história original, ou a alguns elementos dela. Mesmo assim, na maioria das adaptações é preciso mexer em muita coisa quando se adapta um livro para um outro meio.
O principal é conseguir se manter fiel ao universo do autor. Afinal, a novela só existe porque já havia um interesse em adaptar aquele determinado autor. Em Tieta, por exemplo, tínhamos dois ótimos personagens, Tieta e Perpétua. E tínhamos também a história da prostituta que volta à cidadezinha da sua juventude, onde foi escorraçada pelas forças conservadoras. Agora rica e poderosa, ela volta para se vingar. Um excelente plot.
Mas em Porto dos Milagres, os dois livros que usamos como base, Mar Morto e A Descoberta da América pelos Turcos, não tinham espinha dorsal forte nem personagens interessantes. Aguinaldo e eu só aproveitamos os nomes do casal romântico principal, Guma (Marcos Palmeira) e Lívia (Flávia Alessandra), e o nome Rosa Palmeirão (Luiza Tomé) - eu me refiro aos nomes mesmo, não à trama dos personagens.
Todo o resto foi inventado. Félix Guerreiro (Antônio Fagundes) e sua mulher Adma (Cássia Kiss), por exemplo, não existiam na obra de Jorge Amado. Eles foram inspirados em Macbeth – olha Shakespeare aí de novo! Mais uma vez, essas tramas serviram apenas de ponto de partida para a criação de uma história que ganhou rumos totalmente diferentes enquanto estava sendo escrita, afinal, novela é obra aberta.
Novamente, o que interessa é a vivência de cada autor e a maneira como ele quer contar aquela história, mais do que a história em si, afinal, não existem tantas histórias novas e diferentes para serem contadas. As histórias são mais ou menos as mesmas.
Mas as maneiras de contá-las são infinitas, já que dependem da vivência de cada escritor. Tanto em novela quanto em cinema e teatro, temos que aproveitar da obra literária tudo o que nos for útil, e jogar fora o resto, sem pudor. O excesso de fidelidade não acrescenta nada ao livro original e sufoca a nova obra.
Patricia Oriolo: Qual é o seu processo para escrever? Você é disciplinado?
Ricardo Linhares: Eu sou muito disciplinado no trabalho. Quando a novela está no ar, acordo às 07:00, tomo café e logo começo a escrever. Minhas horas mais produtivas são pela manhã. Eu sou diurno. Não gosto de dormir tarde, mesmo de férias. Curto o dia.
Às 11:00h eu paro de trabalhar, faço uma hora de ginástica, volto para casa, almoço e volto para a frente do computador. Trabalho direto até o jantar. Vejo a novela ao vivo, no ar. Não gosto de ver a novela depois, gravada. Não sei explicar, mas é como se perdesse alguma coisa. Prefiro ver como o espectador comum, com os intervalos comerciais. É um hábito. Sempre fiz assim.
Depois do jantar e da novela, volto para o computador e trabalho até por volta da meia-noite. Quase sempre, esse ritmo de trabalho vai de domingo a domingo. Quando a novela vai indo muito bem, sem maiores problemas além dos habituais, consigo ter folga uma vez por semana, no sábado ou no domingo, e até dá para pegar uma praia ou ir ao cinema.
Há autores que conseguem levar uma vida mais normal, mesmo com novela no ar. Eu, infelizmente, não consigo. Preciso da rotina, de concentração, de silêncio para produzir. Trabalho com música clássica ou com jazz. Música cantada me desconcentra totalmente, ainda mais se for música brasileira. Eu começo a acompanhar a música mentalmente, quando vejo estou cantando junto e nem sei mais o que estava escrevendo.
Eu preciso me programar com antecedência para jantar fora, participar de um compromisso social ou familiar. Eu levo meu trabalho muito a sério. E tenho orgulho de nunca ter atrasado um bloco de capítulos sequer, mesmo certa vez enfrentando problemas com a novela no ar, quando tive que mudar o tom de uma história com a trama em andamento.
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