Entrevista com Ricardo Linares (8)

Patricia Oriolo: Uma de suas marcas é a presença do realismo fantástico. Você concorda com isso?

Ricardo Linhares: Durante muitos trabalhos, a presença do realismo fantástico foi muito forte nas minhas novelas, sim. Mas acho que agora esse estilo está apresentando sinais de desgaste. No Brasil, nas telenovelas. No mundo, na literatura.

Claro que sempre vai existir espaço para histórias que abordem o fantástico, como meninos que conversam com pessoas mortas ou filmes japoneses de terror. Mas o realismo mágico latino-americano tem forte crítica política, temperada com ironia e sarcasmo. Esse realismo mágico de Garcia Marquez, Cortázar, Isabel Allende, entre outros, é fruto de uma época que passou.

Garcia Marquez, por exemplo, hoje dedica-se a escrever memórias (até memórias disfarçadas). E Isabel Allende lança livros de receitas. No Brasil, vivíamos o fim da ditadura militar, ainda sob forte censura. O realismo fantástico fez muito sucesso ao comentar, com bom humor, o nosso dia-a-dia. Foi um pacto com o público, como se piscássemos um olho: vamos fingir que é tudo fantasia, mas por baixo dos panos nós sabemos que é real.

Hoje, não precisamos mais de metáforas para falar de corrupção política. Os jornais escancaram a podridão do governo, realisticamente. Com as dificuldades da vida, acho que até a capacidade de imaginação do público diminuiu. As platéias hoje querem tudo mastigado. Não querem pensar, analisar, questionar.

O público procura na televisão um espelho do seu cotidiano, histórias reais - ou que pareçam reais - talvez até em busca de indicações de como agir e se comportar. O sucesso dos reality-shows é uma prova disso. Em vez da metáfora e da fantasia, temos o ser humano nu e cru. Como o expressionismo e o surrealismo, por exemplo, o realismo mágico é um estilo que começa a pertencer ao passado. Mas nada impede que um dia ele volte.

Nada é mais volúvel do que a moda e o gosto das platéias. Ou como disse Guimarães Rosa: “As pessoas não morrem, ficam encantadas”. O realismo mágico ficou encantado... e um dia pode desencantar. Em Agora é que são elas, percebi que o público das 18:00h não estava interessado em crítica social ou ironias políticas.

Abandonei o estilo de realismo fantástico, em plena novela no ar, e aos poucos fui investindo no resgate do amor do passado entre Juca Tigre (Miguel Falabella) e Antônia (Vera Fischer). A resposta do público foi excelente. Todos passaram a torcer pelo romance. Não foi uma ruptura, foi uma mudança paulatina, que fiz de modo bem dosado, intencional, passo a passo, cada capítulo mudando um pouquinho o foco da trama.

Foi trabalhoso, mas não mexi no perfil dos personagens, não tirei nenhum ator da novela nem tive que criar novos núcleos. A mudança aconteceu com naturalidade e o público não estranhou. Descobri que o público das seis da tarde é mais simples e quer se emocionar com uma boa história de amor.

Não vai nisso absolutamente nenhuma crítica. O espectador estava certo. Eu quis inovar, levando para o horário uma trama política e debochada, mais adequada a outro horário e outro tipo de público. Hoje, essa conclusão parece óbvia. Mas na época não estava tão clara assim.

A partir disso, comecei a refletir sobre o fôlego do realismo fantástico nas telenovelas. Nesse momento, mais ou menos uns três meses após o término de Agora é que São Elas, Gilberto me convidou a participar de Celebridade. A novela já estava implantada, era um fenômeno de audiência e repercussão.

Mas nossa querida e talentosa Leonor Bassères, companheira de Gilberto em tanto trabalhos, morreu. E ele me chamou para fazer parte da equipe. Eu fiquei muito feliz e aceitei de imediato o convite. Comecei a escrever num estilo que nunca havia experimentado antes, o melodrama urbano, contemporâneo, com o toque de sofisticação do Gilberto. Gostei muito. E agora Gilberto e eu somos parceiros novamente, dividindo a autoria de Paraíso Tropical, que deve estrear no início de março de 2007, às 21:00.

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TRABALHOS NA TV:
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A Máfia no Brasil
O Tempo e o Vento
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O Outro
Fera Radical
Tieta
Lua Cheia de Amor
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Pedra sobre Pedra
Fera Ferida
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O Campeão
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AUTOR
Meu Bem Querer
Agora é que são Elas
 
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