Entrevista com Roberto Farias

Revista de Cinema: Seria interessante se pudéssemos começar com você contando um pouco do caminho que te levou originalmente até o cinema, como opção de carreira e de vida.


Roberto Farias: Sou friburguense. No curso Científico, conheci Dickson Macedo, irmão de Watson Macedo, diretor da Atlântida (“Este Mundo é Um Pandeiro”, “Carnaval no Fogo”, “A Sombra da Outra” ) filmes que eu assistia no cinema Eldorado, na minha terra. Eu e meus amigos promovemos um concurso de fotografia e convidamos Watson a participar, como friburguense, e ele aceitou.

Watson não era de Friburgo, mas sua família estava estabelecida lá, no Hotel Friburguense, de sua mãe. Travamos conhecimento. Watson ia a Friburgo nos fins de semana e passava temporadas escrevendo os roteiros dos filmes que ia fazer.

Interessado, eu não saía de perto. Logo demonstrei interesse em trabalhar em cinema. Watson me deu alguma esperança, quando eu terminasse de estudar. Logo, aos 18 anos, fui para o Rio de Janeiro para fazer o vestibular de Arquitetura, sempre passando na Atlântida em busca de trabalho.

Com minha insistência, deram-me a oportunidade de fazer as fotografias de cena (still). Eu queria mesmo era a carreira da fotografia, mas Edgard Brasil, o fotógrafo, já tinha seu assistente. Para ganhar um pouco mais, disseram que eu teria de acumular o cargo de assistente de direção.

Naqueles tempos essa era uma função inexistente. Começou comigo, e significava fazer tudo, trazer cafezinho, bater a claquete, anotar as roupas e a continuidade, ajudar os atores a decorarem o diálogo etc.

Aos poucos, os diretores foram percebendo que eu era mais útil na função de assistente. Transformei-me numa espécie de público número 1 das cenas filmadas. Ao gritarem “corta”, eles procuravam descobrir a impressão que a cena havia me causado.

Se eu tivesse alguma restrição à interpretação, por exemplo, fazia um gesto, uma careta, e eles filmavam novamente. Percebi que minha função poderia ser mais importante que trazer cafezinho e que os diretores não filmavam sem a minha presença. O primeiro diretor com quem trabalhei não foi Watson, foi José Carlos Burle, no filme “Maior que o Ódio, em 1950.

Revista de Cinema: Como você lembra dos tempos da Difilm?

Roberto Farias: A Difilm foi o resultado de muita discussão com o grupo Cinema Novo. Na verdade, inspirada por mim e meu irmão Riva. Eu, na época, já era veterano, com 10 anos de cinema, 14 longas como assistente e 5 como diretor.

A recuperação dos investimentos era minha maior preocupação. Propus a criação de uma distribuidora para aumentar a renda do produtor e principalmente eliminar o intermediário entre ele e o exibidor. Isso significava obter mais 20% da receita da bilheteria e evitar desvalorização da renda.

Na época, a renda chegava ao produtor com meses de atraso porque não só o distribuidor, mas muitos exibidores custavam a pagar as faturas. A Difilm começou com o filme “Crime de Amor”, baseado num fato policial conhecido como “A Fera da Penha”. O Diretor e produtor era Rex Endsley, inglês radicado no Brasil, que n_o pertencia ao Cinema Novo, nem fez outro filme depois disso, que eu saiba.

A Difilm transformou-se numa distribuidora respeitada e contribuiu para solidificar o Cinema Novo. Aos poucos, porém, surgiram contradições entre seus membros. Apesar de participar do grupo por minhas relações com Glauber Rocha e Luiz Carlos Barreto, o núcleo duro do Cinema Novo não se sentia confortável com minha produção, sempre voltada para um cinema de qualidade, mas objetivando o público.

O primeiro filme de minha produtora distribuído pela Difilm foi “Toda Donzela Tem um Pai que é uma Fera”, de Gláucio Gil. Um grande sucesso de bilheteria, o segundo, “Roberto Carlos Em Ritmo de Aventura”. Críticas veladas, seguidas de dissidências.

Glauber foi o primeiro a sair da empresa, fundando a Mapa Filmes, com Zelito Vianna. Apesar de ter consciência da necessidade da união de vários cineastas para manter uma distribuidora, sentia-me prejudicado porque evitar o giro da receita dos meus filmes pelos intermediários era meu objetivo principal. E minha renda estava sendo usada para financiar filmes dos sócios da Difilm.

Riva, meu irmão, Jarbas Barbosa, Jece Valadão e eu fundamos a Ipanema Filmes para distribuir exclusivamente os nossos filmes. Queríamos demonstrar que eles eram indispensáveis e que a Difilm não se sustentaria apenas com os filmes que visassem o mercado de arte. Foi o que aconteceu. Depois da nossa saída, a Difilme praticamente desapareceu.

A Difilm foi fundada por 11 cineastas, que constavam do seu contrato social: Rex Endsley, Riva Faria, Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues, Paulo César Saraceni, Joaquim Pedro de Andrade, Roberto Santos, Leon Hirzmann, Luiz Carlos Barreto, Roberto Farias.

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