Entrevista com Roberto Farias - 2

Revista de Cinema: Aos poucos sua família foi entrando no cinema e hoje os Farias são um dos maiores clãs do cinema brasileiro. Como se deu isso?

Roberto Farias: Fomos criados com amor, para sermos solidários, amigos. Filho de um marceneiro, nosso pai aprendeu a profissão de açougueiro com um cunhado. Homem sensível, papai tinha pouco estudo, mas muitos dons. Solucionava problemas, como um engenheiro, trabalhava a madeira, como um artesão. Ninguém como ele tratava as feridas acidentais em conseqüência das artes dos filhos.

Gostava de música. Para ele, quem sabe tocar um instrumento musical, é feliz. Nossa mãe adorava cinema. As primeiras imagens de filmes na minha memória remontam a uma idade tão antiga que nem posso precisar. Antes de sair de casa para o cinema, mamãe não esquecia a chupeta e da mamadeira, caso eu chorasse no colo dela durante a sessão.

Cresci assim, e assim me lembro das etapas: primeiro no colo dela, depois sentado no braço da cadeira, para ver o filme, e, finalmente, ocupando uma poltrona só para mim. Sou mais o velho. Quase 4 anos mais que o Riva e 5 a mais que o Reginaldo. Eles vieram para o Rio em seguida, quando Watson produzia seus filmes associado a Oswaldo Massaíni e Roberto Acácio.

Eu era o exemplo de alguém que saíra da cidade pequena, já ganhava meu dinheirinho e me tornara independente, apesar de alguns tropeços. Era natural que buscassem estar juntos comigo. Riva, que trabalhava desde muito cedo, como contínuo num banco em Friburgo veio em seguida; Reginaldo também trabalhava num banco, mas cultivava desejo e vocação para ator, desde que, anos antes, Watson dissera que precisaria de um menino de 12 anos, como ele, para um filme que iria fazer.

Esse filme nunca saiu. Reginaldo cresceu preparando-se para ser ator. Lia, estudava, interpretava. Dotes que a família já percebera desde os tempos em que, ainda bebê de 2 anos, imitava bichos, fazia discursos sem saber falar, e tentava imitar com a boca, os sons da banda de música de Friburgo, com seus pratos e bumbos. Trabalhamos juntos pela primeira vez no filme de nossa produção “Rico Ri à Toa”, com Zé Trindade e Violeta Ferraz.


Revista de Cinema: - Relendo “Revisão crítica do cinema brasileiro”, é curioso como Glauber o tinha como exemplo de um realizador dividido em dois. Essa descrição vinha em grande parte devido ao fato de você ter começado sua carreira nas chanchadas, não é? Como era isso?

Roberto Farias: Eram tempos remotos e é natural que ele pensasse assim. A Atlântida ficou conhecida como “A produtora das Chanchadas da Atlântida”.

Era uma época em que não se dava muito importância ao filme nacional. Mas a Atlântida não fazia somente chanchadas. “Moleque Tião”, “Também Somos Irmãos”, “Terra Violenta”, “A Sombra da Outra”, “Maior que o Ódio”, “Areias Ardentes” foram tentativas de outros caminhos.

Dos quatro filmes em que trabalhei lá, somente dois são chanchadas. “Maior que o Ódio” era um policial, “Areias Ardentes”, um drama de mistério. Somente “Aviso Aos Navegantes” e “Aí Vem o Barão” eram chanchadas.

Revista de Cinema: Você costuma rever seus filmes?

Roberto Farias: Raramente. Às vezes, quando quero lembrar mostrar a alguém como fiz uma seqüência, ou enquadrei um plano, movimentei os atores, desloquei a câmera. Por vezes, assisto alguns trechos, quando são exibidos no Canal Brasil.

Revista de Cinema: - No período da Embrafilme, como era a relação entre o ministério de Educação e Cultura e o ministério da Justiça? Neste sentido, “Pra frente Brasil” é como um desabafo, não é?

Roberto Farias: A relação da Embrafilme com o Ministério da Cultura e mesmo com o da Justiça era boa. A Justiça era parceira da Embrafilme, porque a Censura Federal, independentemente de sua tarefa de censurar, era importante no controle da Lei de Obrigatoriedade de Exibição de Filmes Brasileiros.

Quanto à Censura, tínhamos por princípio que a nós cabia fazer os filmes e ao Ministério da Justiça censurar, se fosse o caso. A nós cabia lutar pela liberdade de expressão e não foram poucas vezes que procuramos interferir para liberar filmes ou trechos censurados. Mas não houve desgaste.

Nossa maior dificuldade era com os órgãos de segurança. O DSI, um braço do SNI no Ministério da Educação, e o próprio SNI não davam trégua. Éramos vigiados o tempo todo. Os tais bolsões da linha dura, referidos por Geisel, nos viam com muita desconfiança.

Revista de Cinema: Porque você está tanto tempo sem dirigir um filme?

Roberto Farias: Muitas razões. Minha vida foi pautada pela responsabilidade do investimento nos filmes. Meu objetivo é fazer filmes de qualidade artística, mas que não se afastem de suas responsabilidades comerciais.

Cinema é uma atividade cara e o cineasta não pode desprezar o público. De 13 filmes dirigidos por mim, apenas dois têm a participação do Estado: “Pra Frente Brasil” e “Os Trapalhões no Auto da Compadecida”. A história do “Pra Frente Brasil”, todo mundo conhece: foi interditado pela Censura e para liberá-lo, quase um ano depois, tive de devolver os recursos que o Estado investiu, de modo que verdadeiramente, só um filme meu teve investimento do Estado.

Aliás, devidamente pagos com a bilheteria. O mercado mudou muito, de 3.500 salas, chegamos a apenas 600. Hoje em recuperação, tem algo como 1.200 salas. Quando havia mercado, o risco era menor. Mesmo assim, o cinema nacional carecia de ajuda,. Hoje, não pode viver sem ela. Passei a fazer televisão, onde encontro reconhecimento pelo que aprendi a fazer na vida: filmar.

 

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