Entrevista com Roberto Farias - 3

Revista de Cinema: Você poderia falar um pouco sobre os projetos “Sete pistolas do bem” e “O hóspede americano”? Ainda pensa em tirá-los do papel?

Roberto Farias: “Sete Pistolas do Bem” foi um título provisório que dei para um roteiro elaborado por mim e Flávio Leandro sobre as milícias que expulsam bandidos das comunidades, dominam as favelas, mas acabam por se comportar como eles, cobrando pedágio e segurança. O título é “Poder Paralelo”.

Revista de Cinema: - Para os leitores que desconhecem como se divide a renda de um filme, você poderia esclarecer o processo?

Roberto Farias: Sem considerar divisões entre sócios da produção, falo apenas da renda dos filmes nos cinemas. Em primeiro lugar, vêm os descontos de impostos. Em seguida, a praxe é a divisão da renda em 50% / 50% entre o exibidor e o produtor. A renda do produtor deve pagar vários custos, o da distribuição vem antes de tudo e pode custar entre 20 a 25%.

O distribuidor, normalmente, responsabiliza-se pelo custo de cópias e publicidade, que desconta em seguida, após retirar sua comissão. O que sobra é para pagar os custos de produção.
Simplificando:

  • Renda total 100% - Descontos de impostos.
  • Sobram X, que viram novamente 100%.
    Metade para o exibidor,
    metade para o produtor.
  • A metade do produtor vira novamente 100%
    destes, o distribuidor leva 20 a 25%.
  • Do que sobra, são descontadas as despesas de lançamento, cópias, publicidade.

O produtor fica com a sobra daqueles 100% iniciais, que significa de 12% a 15% do que o filme fez lá atrás. Essa sobre é que deve pagar os custos de produção. Lucro, só depois disso tudo.


Revista de Cinema: Recentemente você armou uma bomba ao anunciar que este ano a renda de todos os filmes brasileiros para os produtores não passará de R$ 10 milhões. Mas a bomba parece ainda não ter explodido.

Roberto Farias: Bombas desse tipo só explodem quando a imprensa decide. Pelo fato dos organismos do cinema terem sido criados durante o governo militar, durante muitos anos o cinema brasileiro teve a antipatia da imprensa.

Não foi o principal fator, mas isso contribuiu para a extinção da Embrafilme e o Conselho Nacional do Cinema pelo governo Collor, como entidades desnecessárias ao Estado brasileiro.

Revista de Cinema: Você poderia nos explicar sua defesa por um Adicional de Renda diferente do que este que está em vigor?

Roberto Farias: Há uma enorme soma de recursos é investida no cinema brasileiro. Hoje a produção dos filmes conta com incentivos federais da Lei Rouanet, da Lei do Audiovisual, do BNDES da Petrobrás e algumas estatais.

Há incentivos diretamente concedidos pelo MINC, há estaduais e municipais, além de investimento das Majors, através de renúncia fiscal do governo federal. Tudo picado. O MINC se esforça para disciplinar essas aplicações e isso acaba se dando nem sempre com justiça.

Por exemplo: o próximo edital da Petrobrás diminui o patamar de produtores e diretores que não fizeram filmes nos últimos 4 anos. Uma vez que os incentivos fiscais têm mais de quatro anos, isso significa simplesmente que o edital só contempla aqueles que fizeram filmes com recursos incentivados.

Todo produtor de cinema que investiu recursos do próprio bolso situa-se numa faixa anterior. A principal vantagem do adicional de renda é estimular investimentos da iniciativa privada. Após o filme ser produzido e exibido é concedido um adicional à renda bilheteria, que preconizo de 100%, como mínimo.

O bem maior do Adicional é a garantia da liberdade de expressão. Ao serem produzidos, os filmes não dependem da opinião de investidores de empresas que nada têm a ver com o cinema, nem de diretores de marketing e Comissões de Seleção.

Por outro lado, essa forma de incentivo obriga o produtor a dar importância aos resultados de seu filme diante do público porque ele ganhará mais na medida em que seu filme alcançar maior parcela desse público.

Os incentivos fiscais que sustentam o cinema brasileiro hoje são oferecidos antes e resultam numa imensa quantidade de filmes que sequer chegam às bilheterias. Dentre os produtores atualmente ativos no Brasil há pouquíssimos que têm memória de um cinema em que fazer público é de fundamental importância.

O adicional de bilheteria oferecido hoje não é desprezível, mas significa um duplo incentivo, já que nenhum filme se produz no país sem incentivo fiscal.

Os valores necessários a implantação de um Adicional de Renda de 100% da parte do produtor na exploração de seus filmes seriam pequenos em relação ao que se gasta anualmente em incentivos fiscais, dariam um formidável impulso no cinema brasileiro e iriam corrigir um festival de gastos, que considero perigoso para o cinema nacional diante da opinião pública. Os filmes têm incentivos antes e depois.

São gastos anualmente pelo menos 200 milhões de reais em produção de filmes nacionais.. 20% desses recursos são 40 milhões.

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