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Entrevista com Roberto Farias - 4
A receita do produtor em todos os filmes de 2004, foi de 22 milhões de reais, portanto, 40 milhões de Adicional de Renda triplicariam sua renda. O produtor que acredita no cinema brasileiro teria condições de reinvestir e caminhar com suas próprias pernas, dependendo de sua relação com o público.
Em 2006 a renda de todos os filmes nacionais parece não ter chegado a 10 milhões. O Adicional de Renda de 100% + a renda efetivamente feita na bilheteria significaria um aumento de receita 5 vezes maior para o produtor. Num cenário ideal, o país teria economizado 160 milhões de reais.
Imaginem o que se evitaria em burocracia hoje instalada para examinar as contas dos produtores porque o incentivo com recursos públicos vem antes do filme ser feito. Se os filmes forem produzidos com recursos privados, não haverá necessidade de saber quanto custaram.
Seus custos seriam questão exclusiva da contabilidade das empresas. Como o investimento seria privado, certamente esses custos baixariam por não contarem com incentivos a priori.
Na sua maioria, os jovens que hoje fazem cinema não são mais ricos, nem mais pobres, dos que fizeram o Cinema Novo na década de 60. Eles empenharam a casa dos pais, venderam o apartamento da tia, a bicicleta, comeram sanduíche, passaram noites sem dormir, fizeram filmes rápidos e inteligentes e não ficaram devendo nada a ninguém.
O Adicional perdeu-se na história e nunca mais foi retomado. Pena porque era o mais justo incentivo que o cinema brasileiro já teve.
Revista de Cinema: Há quem diga que a simples substituição do sistema atual pelo que proponho paralisaria o cinema brasileiro O que você acha?
Roberto Farias: Há quem diga que a simples substituição do sistema atual pelo que proponho paralisaria o cinema brasileiro porque ninguém investiria. Para não abandonar minha proposta por esse motivo, imaginei uma fusão, uma convivência por um ou dois anos das duas formas, até nos livrarmos do atual sistema.
Ao produzir um filme, quem se utilizasse de um incentivo fiscal antes só teria direito a 50% do Adicional de Renda, quem utilizasse 2 incentivos, teria apenas 25%, até nenhum adicional. O importante seria começar a mudar o que me parece insustentável ao longo do tempo.
Minha preocupação maior é que no momento em que a imprensa se der conta do que está acontecendo e encarar esse problema de frente, o cinema brasileiro poderá estar com os dias contados. Uma canetada acaba com ele, como aconteceu nos tempos do Collor.
Por isso, preferiria uma decisão radical. Surgem, então, os defensores dos filmes de pesquisa estética, os de arte, os de estréia etc. Nos tempos do Adicional de Renda do Instituto Nacional do Cinema, todos os anos havia a escolha de 10 ou 20 filmes, considerados “De qualidade”.
Eram escolhidos por uma comissão renovada a cada ano, que concedia um percentual ainda maior, além daquele a que tinham direito todos os filmes realizados no ano. Para mim, esta é a única forma em que concordo com a existência de uma Comissão.
Com toda a subjetividade que é julgar uma obra, é mais sadio julgá-la depois de feita. Não se compara com Comissões que decidem qual filme merece ou não ser realizado.
Para finalizar, uma das dificuldade de implantar minha proposta é convencer à Receita Federal, ao Ministério da Fazenda, ao Governo Federal, que disponibilizar os recursos no orçamento para o Adicional de Renda, através de uma Lei, é melhor e muito mais barato que oferecer renúncia fiscal e incentivos às empresas para descontarem os investimentos feitos em cinema do imposto de renda a pagar.
A Receita é contra e falta vontade política, além da desconfiança dos cineastas em relação a qualquer governo. Tudo que depende do orçamento e pode ficar para as calendas. Sem falar na inércia de muitos cineastas que estão contentes com o atual status quo...
Revista de Cinema: Em sua filmografia constam alguns projetos mais ousados em termos de experimentações como, por exemplo, o “Selva trágica”. Como se deu o processo de produção para esse filme? Você conseguiria tê-lo produzido hoje?
Roberto Farias: Acho difícil por dois motivos. “Selva Trágica” foi feito com empréstimo bancário. A decisão foi exclusivamente minha. Depois, quem se interessaria em colocar recursos incentivados num filme sobre ervateiros escravizados na fronteira do Brasil com o Paraguai?
Revista de Cinema: Glauber Rocha teve financiamento da Embrafilme para realizar “A idade da terra”. Você era então o presidente da entidade. Glauber teve de apresentar orçamento e roteiro?
Roberto Farias: Este é um exemplo que costumo dar. Pena que o roteiro original apresentado à Embrafilme deva estar por aí, em alguma prateleira empoeirada da burocracia. Nenhuma Comissão Responsável daria incentivos ao Glauber por aquele roteiro. O financiamento a ele foi dado pelo seu currículo, pela importância que sempre teve no cinema brasileiro.
Revista de Cinema: O período em que você esteve na presidência da Embrafilme é hoje considerado a era de ouro da entidade. E na verdade, suas idéias lembram de certa maneira o modelo aplicado pela Embrafilme, não é?
Roberto Farias: Não prego a volta da Embrafilme. O sistema de produção e aplicação de recursos, sim. Era o ideal. Mas não acredito numa Distribuidora Estatal. É muito difícil segurar a burocracia, o tráfico de influência, o empreguismo.
Curiosamente, isso só foi conseguido na Embrafilme porque estávamos sob um regime militar e os dirigentes da empresa levavam a sério a resistência a esse perigo. Por outro lado, empresas públicas têm de obedecer a uma série de regras burocráticas que são incompatíveis com a iniciativa privada, principalmente numa atividade tão dinâmica quanto a distribuição de filmes em que decisões têm de ser tomadas com rapidez.
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