Entrevista com Roberto Farias - 5

Revista de Cinema: A bilheteria do filme brasileiro está em queda desde o recorde de 21% do mercado em 2003. Não é indício de desinteresse do público pela produção nacional?

Roberto Farias: Não acredito nisso. Há um divórcio entre o que o cinema que o cineasta quer fazer e o que o público quer ver.

Revista de Cinema: O que você acha da afirmação do secretário de Cultura de São Paulo, Carlos Augusto Calil, de que não se deve por a culpa no público pelos baixos números na bilheteria, de que os filmes não estão sendo feitos visando o público, mas os concursos de patrocínio?

Roberto Farias: Concordo e diria ainda mais: visando as Comissões de Seleção, a consonância com a política do MINC.

Revista de Cinema: Nenhum filme se paga mais só no mercado de salas. A ausência do filme nacional da TV não é o grande nó no caso brasileiro?

Roberto Farias: Atualmente, não vejo diferença entre a produção de dramaturgia na televisão e no cinema. Tanto no cinema como na televisão há bons e maus produtos. Houve uma época, quando a televisão começou no Brasil, em que a legislação poderia estabelecer um percentual para a produção independente.

Para a televisão, como produção própria, ficaria sobretudo o jornalismo, os shows etc. Mas o cinema brasileiro tinha poucos produtores e não havia como abastecer a televisão. Por outro lado, a televisão ainda não sabia que rumo tomar.

No que diz respeito à dramaturgia, a maior parte baseou a programação em filmes estrangeiros. A TV Tupi fez novelas, seriados, teleteatro, mas nunca fez do produto brasileiro o principal de sua programação.

Depois que a Globo entrou no mercado, Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, deu ao produto nacional o privilégio de seus maiores esforços. Não deu outra. O público escolheu a dramaturgia brasileira e os anunciantes foram atrás.

A televisão aperfeiçoou-se como indústria da produção audiovisual e não há, hoje, no Brasil ninguém que possa rivalizar com ela nesse sentido. Cabe então a pergunta. Como e por que exigir da televisão a obrigação de exibição do cinema naciona?

As novelas, hoje exibidas em mais de 100 países, os prêmios e o reconhecimento internacionais à produção da televisão brasileira demonstram que ela preenche satisfatoriamente as necessidades de uma produção própria que um país pode desejar.

O cinema brasileiro, como vanguarda do audiovisual, não tem feito mais que a televisão. Acrescente-se a isso a quantidade de técnicos, atores, maquinistas, figurinistas, cenógrafos, empregados com carteira assinada, férias e 13o salário.

Seria desejável que a televisão exibisse mais filmes nacionais? Seria. Mas nesse quadro é justo obrigar através de leis? Não me parece. E ainda que triplicasse a presença do filme nacional na televisão, os valores de mercado são baixos e não são significativos.

O produto americano é preponderante no mercado mundial de cinema e televisão e ele determina os parâmetros. Tanto no cinema, como na televisão, recebemos o excedente da produção mundial. Filmes que necessitam obter do nosso mercado uma pequena parcela dos seus custos, ou melhor, dos seus lucros.

Esta prática é a mesma que coloca o cinema nacional em condições de desigualdade em relação ao estrangeiro nas salas de cinema. Enquanto não exploramos nossos filmes em escala mundial, como os americanos conseguiram, dependemos 100% do mercado interno e temos de concorrer com o produto deles, mais rico em valor de produção, e com o hábito de consumi-los arraigado nos espectadores do mundo inteiro.

Revista de Cinema: O cinema brasileiro já teve um Estado que realmente o protegesse? A participação do Estado no cinema nacional é hoje estruturante ou compensatória?

Roberto Farias: O Estado nunca deu a devida importância do cinema brasileiro.Todas as medidas, desde a década de 30 foram modestas. Para comparar, tomo como exemplo fato recente na área da comunicação.

Ao privatizar as teles, o Governo Fernando Henrique não só convocou empresários como o BNDES financiou-os; a Receita Federal concedeu renúncia fiscal de 100 do Imposto de Renda sobre o excedente aos lances mínimos exigidos nos leilões. Algo na casa dos bilhões.

A verdade é que o produtor brasileiro nunca teve incentivo fiscal diretamente dirigido a ele. Os incentivos atuais são oferecido à empresas a quem o cineasta precisa recorrer e convencer a aplicar no seu filme. Filme que precisa enfrentar o cinema americano poderoso no mercado.

Não há verdadeiramente um incentivo vigoroso para a produção do audiovisual no Brasil. 3 ou 4% do imposto a pagar pelas empresas é um incentivo pulverizado, mínimo, que não estimula verdadeiramente as grandes empresas a entrarem no setor. Não anima ninguém a disputar um mercado mundial de bilhões de dólares.

Agora mesmo, a nova lei criou uma espécie de artigo 3_ para as televisões, como o que é concedido às distribuidoras internacionais. Vejam só: no artigo 3_ da Lei do Audiovisual a renúncia fiscal é de 70% do imposto a pagar sobre a remessa de lucros da exploração dos filmes estrangeiros no Brasil.

Ao se imaginar incentivo para as televisões, procurou-se um sistema semelhante, em que pode ser aplicada em filmes, telefilmes, e programas com produtores independentes parte do imposto de renda sobre a remessa de lucros de filmes, programas e esporte estrangeiros.

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