|
Entrevista com José Carlos Sibila (3)
Patricia Oriolo: Fale sobre a cadeira que ocupa na Academia de Letras?
José Carlos Sibila: O patrono é Vicente de Carvalho e eu tive a felicidade de ser eleito pela totalidade dos votos válidos. Fiquei muito satisfeito, pois não conhecia pessoalmente muitos dos que me elegeram, o que é sinal de que Pablo Neruda estava certo, quando disse que a “obra não é de quem faz, mas de quem precisa dela.”
Na verdade eu fiquei um pouco constrangido com a pompa que se dá a essas ocasiões, mas confesso que gostei. O fato de ter um Diretor de Cinema (Nelson Pereira dos Santos) na Academia Brasileira de Letras e agora com a minha inserção nesse mundo (consideradas as diferenças entre mim e o Nelson) é sintomático e deveríamos refletir a respeito, pois me parece o reconhecimento literário dos criadores de outras procedências.
No momento estou terminando o meu terceiro livro e primeiro romance, chamado “Uma alma à procura de um corpo”, que depois de editado, quero ver se consigo uma oportunidade de levá-lo à tv.
Patricia Oriolo: Na última FLIP, a Festa Literária Internacional de Paraty, uma escritora americana ficou surpresa ao saber que aqui no Brasil os escritores não vivem apenas da literatura, precisam manter outra profissão. A mesma escritora considerou isso muito bom para estimular a criatividade. Como você vê a situação do escritor profissional no Brasil?
José Carlos Sibila: A surpresa da autora americana só vem ressaltar a ignorância que eles têm em relação ao mundo. Não há uma única razão para que ela se surpreenda com o fato. A literatura em nosso país não é um produto de valor comercial. Mesmo no país dela, são muitos os exemplos de autores que não conseguiram viver da literatura. Bukowski que o diga. E, para o meu gosto, ele é o mais brilhante entre eles.
Eu acho que “não é ter outra profissão que estimula a criatividade” como ela disse, mas é o fato do autor se relacionar com o mundo em que vive, seja com outra profissão, ou mesmo no botequim, na rua, na zona, na polícia, na sociedade.
O autor não é dono do produto criado, pois a informação inicial ele recebeu da vida e dos que vivem, seja pela absorção do conhecimento, pela herança genética, ou por todas as informações que armazenamos, processamos e devolvemos estruturado para quem nos lê, ouve, assiste ou tudo isso junto.
Creio que a autora americana estava querendo é fazer um agradinho aos “pobres” autores do lado de baixo do equador. E como isso já não agrada mais, falou bobagem. Contraponho à ela o que dizia Flaubert: “ Escrever é uma maneira de viver, quem fez sua esta bela e absorvente vocação não escreve para viver, mas vive para escrever”
|