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Modelos de produção do cinema em discussão (4)
Romeu di Sessa
Queria expressar minhas opiniões sobre esse assunto também, porque acho que ele é bem importante.
Eu entendo perfeitamente o que incomoda no Mauro (Mauro Alvim associado que começou a discussão sobre prêmios dados a filmes que nem sequer chegam a bilheteria) essa idéia torta de se premiar o fracasso de bilheteria, porque isso também me incomoda.
Acho que esse tipo de atitude mostra antes de mais nada a mentalidade equivocada que rege muitas das atitudes da ANCINE, que ao meu ver deveria ter um único objetivo na vida: aumentar nossa participação no mercado. Se o MinC - um organismo eminentemente cultural - se propusesse a dar um prêmio como esse, acho que também estaria errado, mas pelo menos faria sentido. A ANCINE não.
Apesar de também achar Amarelo Manga um filme fraquíssimo, “autoral” no sentido mais amador e juvenil do termo, acho que todo (ou quase todo...) filme tem que ser feito, porque cinema precisa também de inovação, porque através dela também se pode mudar o triste quadro do cinema nacional. Mas na atual conjuntura acho no mínimo imprudente a gente ficar brincando de Europa, e incentivando uma cinematografia que interessa mais ao autor do que ao público, que nunca nos esqueçamos, é quem paga por todos os filmes feitos.
Costumo definir minha posição sobre essa mentalidade que rege o cinema nacional dizendo que não é função do Estado dar dinheiro pra cineasta fazer filme, a função do Estado é promover a cinematografia nacional. Isso engloba muito mais do que o simples fazer filmes, e isso talvez exclua a idéia de se premiar fracassos.
Agora, falando sobre o que o Roberto disse, acho que tem uma certa “destemporaliedade” no que ele disse, tanto pra frente quanto pra trás. Explico.
Acho que não dá pra se analisar o adicional de renda que existia nos anos 60 e 70, ou mesmo a possibilidade de se investir privadamente em cinema sem jogar isso tudo na perspectiva daquele tempo.
É preciso por exemplo lembrar que nos anos 60 o Brasil trabalhava com Tabela Price, ou seja, você pegava um dinheiro no banco hoje e devolvia depois de um ano acrescido de míseros 6% de juros, mais correção monetária que era de 20 ou 30% a.a..
Quer dizer, não dá pra fazer a mesma coisa num “outro país” como esse em que vivemos, onde os juros anuais beiram os 200%, ainda mais pensando que um filme pode demorar 2 ou 3 anos só pra entrar nas salas, pra depois de um tempo começar a se pagar e depois de um outro tempo começar a dar lucro.
Romeu di Sessa, Vice Presidente da ABD-SP, é Roteirista e Diretor.
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