Tropa de Elite - 2

Os roteiristas poderiam pô-lo para estudar Administração, Economia, lá o que fosse. Mas não, foi estudar precisamente  “a ciência da lei”. E o que ele encontra lá?  Os colegas não passam de um  bando de burguesinhos maconheiros, traficantes, defensores hipócritas de direitos humanos (só para os bandidos, “ninguém faz passeata quando morre um policial”, diz o Nascimento).

E o professor não dá aula, por exemplo, de História ou Teoria do Direito, mostrando como as instituições do Direito foram progressivamente se sobrepondo à barbárie no processo civilizatório. Não, nada disso. A aula é sobre Michel Foucault, um sociólogo que esteve muito em voga nos anos 70 e 80, estudioso e crítico dos mecanismos de poder, e incensado por setores libertários e de esquerda.

Só quando vi isso, entendi o porquê do  tal Reinaldo Azevedo escrever aquele artigo na Veja intitulado “Capitão Nascimento bate no bonde do Foucault”, onde afirma: “O que o pensamento politicamente correto não suporta no Capitão Nascimento, o anti-herói com muito caráter, não é sua truculência, mas a sua clareza; não é o seu defeito, mas a sua qualidade”.

O articulista faz referência ao velho Kant (coitado!), colocando espertamente a pergunta que o consumidor de droga não teria como responder: “Você só pratica ações que possam ser generalizadas?”

Mas não faz a mesma pergunta ao Capitão Nascimento. Eu faço. O que teríamos se as ações do Nascimento fossem generalizadas? Eu também respondo: fascismo, puro e simples. As SS dos nazistas eram muito parecidas ao Bope, em ideologia, organização, símbolos, tudo.

Se a gente aceita que o Bope e o Nascimento possam ser a solução para a corrupção na polícia, por que não “elevar” o pensamento, e idealizar uma espécie de Bope político, um partido com aquelas características valorosas, com seus militantes vestidinhos de preto (ou verde, como os integralistas) fazendo suas marchas triunfais e esmagando os burgueses boas-vidas e devassos, aliados dos corruptos, dos comunas disfarçados atrás de Foucault, dos políticos, dos Renans, dos bandidos e traficantes?

Ainda há outros detalhes, como a missão recebida por Nascimento se dever à visita do Papa. O herói e seus companheiros agem para “resguardar o sono do Papa”, ou seja, metaforicamente, o sono da consciência humanista, religiosa, etc.

Reitero minha certeza de que os autores do filme não tiveram nenhuma intenção de propor o que induzi da maneira como vi o filme, mas de uma coisa tenho certeza. Que fizeram um filme perigoso para diabo, lá isso fizeram.

Um filme que situa o pensamento crítico, a lei, os direitos humanos, os valores humanistas, etc,  como um estorvo à ação da única força que efetivamente combate o crime no Rio de Janeiro.
Para terminar, aí vai um dado.

A polícia carioca, no primeiro semestre de 2006, segundo estatísticas oficiais, matou 520 (quinhentas e vinte) pessoas. No primeiro semestre de 2007, aprimorou seu rendimento e abateu 33,5% mais, ou seja, 694 (seiscentas e noventa e pessoas) pessoas.

Na minha modesta opinião, tem alguma coisa errada com esta política de matar favelado. Ou não?

Tropa de Elite, em nenhum momento, questiona esta política, pelo contrário.

De qualquer forma, tem o inestimável  valor de provocar saudáveis polêmicas. Só espero que o grande público que não costuma ler nem debater nada, ao final não saia por aí gritando “anauê!”, quer dizer, “caveira!”.

 


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