Caricaturas de Gente
Subtipos do Caráter "Perfeccioinista"
Tempero Caricatural - Raro é o homem que deve
Felipe Moreno
Nunca estive à toa. Na vida, estou dizendo. Se aquele Chico compôs A Banda, certamente não foi para mim. Andava neste dia quente de outono pelas ruas do bairro de quem me esperava ansiosamente. Seu nome: Célia Vasconcelos Lima. Gosto de pensar nela através de seu nome sonoro e também como minha futura esposa.
Entretanto, parei de inesperado. Minha atenção perdeu a imagem dela porque, de repente, outra emoção destronou o que sentia e tomou posse do trono dos meus olhos brilhantes e incrédulos.
À minha testa surgiram aqueles vincos no qual o paralelismo se fez geometria e meu dedo indicador se ergueu acusador apontando para o ar à procura de um culpado: “quem fora o doido que desferira sua fúria sobre aquelas pobres coitadas indefesas?” Por que elas tinham tombado e levado consigo fios de eletricidade e a alegria de moradores de casas próximas?
Feito água fervente subindo pelo bule de minha indignação senti aquela emoção que outros chamam de raiva, mas que eu denomino vontade de ver o mundo direito feito de pessoas seguindo a retidão e com responsabilidade de usufruir a natureza.
Estava claro quem era o culpado por aquele cenário de destruição que meus olhos brilhantes e duros enxergavam ali: o tal do aquecimento global, sobre o qual acostumara a ler e a ouvir sistematicamente de todos os canais vindos da mídia.
Mas como assim? Quem estava por trás dessa fúria da natureza era o homem! O bicho mais perigoso do planeta! O errante que despreza viver na ordem da harmonia das coisas! Esse é o cara! O (des)carado!
Estava visível o erro mesmo que doesse na carne. Éramos também feitos com os mesmos elementos daquelas pobres árvores tombadas e daquele ar fétido de destruição que exalava naquela rua.
“Querido! Que bom que chegou! Estava tão ansiosa por te ver!”
“Que faz aqui na rua, Celinha? Devia estar me esperando na sua casa. Não deve se misturar a essa imundície.”
“Que está falando? Não está feliz em me ver?”
“Feliz? Como, feliz? Não está vendo o resultado do erro diante de seus olhos?”
Oh! Aquela lividez no rosto quase de cera de minha namorada acabou comigo. A culpa era toda minha. Eu é que vivia na imundície do erro e estava com o punhal da vergonha atravessado nas costas.
Não pense, entretanto, que saí dando beijos de arrependimento na minha amada. Dei mesmo outros “corretivos” porque ela precisava mais de minha bondade em mostrar-lhe o correto – e o correto estava em lhe dizer que eu zelava pelo seu bem e que ela devia ouvir-me sem contestar sobre o desastre que estávamos sendo vítimas em sua rua calma e, agora, (des)arborizada.
“Mas querido! Eu não fiz nada de errado. Não poluo, não fumo, não digo palavrões, nem recusei nenhum tratado de Kioto, então por quê? Eu só corri em sua direção quando vi você perplexo diante dessas árvores caídas...”
“O mundo, Celinha, está perdido! As pessoas não sabem mais o que é direito, o que é certo; só pensam em seus estúpidos privados! Você é pura, devia ficar em casa, quietinha, me esperando. Sabia que eu vinha e então por que saiu correndo assim? Não, você está errada. E ainda mais sair com essa roupa minúscula! A ruína está completa desse jeito. A física e a moral. Oh! Mundo perdido e (des)assistido de regras!”
A culpa voltou e eu a abracei com força, apertando o seu corpo junto ao meu e sentindo sua pele macia. Meu braço comprido repleto de veias longas e esverdeadas ganhou a extensão do seu ombro delicado e começamos a andar por entre a morbidez que se tornara aquela rua que um dia fora saudável.
Senti o meu indicador, grande serviçal das minhas lides acusatórias, carimbar o braço da minha doce Celinha, que, a esta altura, se aquietara como que ciente de que o erro traz de carona a degradação moral.
Efusivamente, eu prossegui moralizando e vertendo minha ácida crítica sobre o desmoralizado mundo dos homens que insistem no erro à custa de outros erros. Errar, errar e errar. Quanto despautério! Para que errar? Só para se sentir culpado? Case então com a culpa e vivam infelizes por toda a vida, ora! E não pense que estou sendo contraditório, pois a culpa para mim é só uma promotora de juízos!
Assustei-me mesmo foi quando chegamos ao portão da casa de Celinha e ela me olhando com um ar brejeiro disse-me assim de repente:
“Querido, melhor desenrugar sua testa porque meu pai não gosta de rival!”
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