Caricaturas de Gente Subtipos do Caráter “Desempenhador” - Tempero Caricatural - Carapaças e Carapuças

Ele acabara de chegar. Entrou em casa segurando um paletó escuro de fibra. No rosto, uma moldura lustrada, diria, escorregadia. Eu nunca sabia o que se escondia por detrás daquela pele lustrosa e encerada que, se não era de marfim, parecia. 

“Conseguiu?”

“Conseguiu o quê? O que quer saber?”

Ele tinha olhos duros e sua língua sempre pronta a disparar a menor aproximação. Detestava que eu chegasse perto demais e visse que ele escondia algo difícil de digerir. Quando se sentia ameaçado, atacava de imediato, com cobras e lagartos.

“Bruxa! Medéia! Não quero você em cima de mim, já disse. Sei muito bem como me virar”.

Nada podia dizer. Ele pensava que sabia uma coisa que não sabia. Mas não diria que fosse um coitado. Nunca conheci a sua intimidade e, aposto, que nem ele. Vivia se escondendo dele próprio num jogo de carapaças e carapuças. Quando pensava que estava por ver o seu rosto verdadeiro, acontecia de ver uma nova faceta emoldurada por um de seus inúmeros semblantes, com os quais disfarçava a sua incapacidade de localizar onde estava de fato o seu rosto, aquele mesmo que trouxera ao nascer.

“Quer saber como foi a reunião? Pois eu digo: foi o Ó! Aqueles caras são um Ó! Não agüento mais!”

Se há uma qualidade nele, digo que é a sua habilidade de despistar. Estava claro que eu queria saber da reunião para a qual ele fora convidado, mas, ainda mais, sobre como ele estava se sentindo diante do encontro fracassado. E não que eu fosse uma bruxa mesmo como ele havia me chamado, é que o aborrecimento estava  estampado naquele rosto quase sem cor agora, pois estava camaleonicamente tomando a forma de algo ainda não definido.  

“Alegaram o que dessa vez?”.

“O que você acha? Que mais poderia sair daquelas bocas?”.

“Não sei, talvez tenham uma resposta padrão”.

Ele pegou um copo alto no bar, encheu de uísque até a metade e bebeu de uma vez. Depois, olhou para mim com os olhos faiscantes e sorriu um riso denunciador.

“Vamos viajar. Tenho dinheiro guardado.”

“Não pode estar falando sério?”

“Por que não?”

“Porque... Porque você está desempregado!”

Não devia ter dito tal coisa, pois não consegui sustentar o olhar furioso que ele me desferiu. Era como se eu tivesse lhe apontado uma flecha na direção de sua vaidosa honra de inatingível homem que jamais perde uma batalha.

“Não sei por que fui me casar com você”.

Gelei. Não suportava quando ele vestia essa máscara: esta mesmo que me deixava encolhida no sofá sentindo-me uma infeliz errante só atrapalhando o homem perfeito, que jamais erra.

“Se não quer viajar, fique aí. Vou sozinho”.

Ele se levantou e saiu. Deixou o paletó encostado na banqueta do bar. Coisa rara de acontecer. Acho que foi para que eu reparasse nele e visse uma carta borrada de batom saindo do bolso de cima.

Na ponta dos pés, eu me aproximei para pegá-la. Ele, que sempre soubera se esquivar de mulheres interesseiras, agora, que estava desempregado, arranjara uma amante?

 “Não mexa nisso!”.

Novamente, gelei. E tal como gelo, endureci o corpo e não dei mais um passo. Senti o bafo de uísque ganhar as minhas narinas e um ar quente foi descongelando os músculos de meu rosto.

“Eu sabia! Eu tinha certeza! Você é uma bisbilhoteira e quer saber coisas demais. Está despedida. Ouviu bem? Despedida!”

Uma esposa-secretária despedida era o que eu era agora. Que mais importava. Descobrira uma nova carapuça dele. Então, levaria tudo comigo. Na memória, uma série de rostos indefinidos que aprendi ser de uma mesma pessoa.

Faces lustrosas e escorregadias que se trocavam uma pela outra sem nunca revelar a matriz única, o negativo que guardava a carapaça das carapuças, ali talvez onde fosse possível enxergar a imagem de quem era aquele que se encobria de várias camadas de película de cera tal como um clown que se esquecera do seu verdadeiro rosto.

Camaleão arisco. Este foi o meu ex-marido. Um pleonasmo talvez. Se foi, é claro que é ex. Mas ele foi tantas coisas que me deixou confusa. Sempre gostou de ser reconhecido.

No plural, quero dizer, porque em se tratando dele, que veste carapaças e carapuças, não há como pensar diferente. Espero que arranje uma nova secretária. E que vire uma esposa-chefe e arranque todas as suas máscaras.

De uma vez só. E que ele não fique nem com um instantezinho para cobrir as suas vergonhas. Será o fogo justo para aquecer o prato frio de minha vingança.  Sim, também sou uma ex.

 

 


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