| Algumas considerações sobre a arte de interpretar um texto dramático Martha Ribeiro
Afimar que o texto dramatúrgico deve ser entendido como uma obra em processo, isto é, inacabado ou não-absoluto, levanta importantes questões epistemológicas, que necessitam de uma maior sistematização por parte daqueles que se interessam pelas condições de recepção da obra.
Entre outras coisas, esta mudança de olhar sobre o objeto propõe, como perspectiva metodológica, abandonar o paradigma do texto enquanto obra fechada para em seguida criar um outro, isto é, do texto enquanto obra aberta.
Umberto Eco em seu livro Obra Aberta (1962) debate exaustivamente e calorosamente o tema da pluralidade de significados de uma obra de arte. A ambigüidade de significados torna-se a principal característica para uma obra ser reconhecida como arte.
Esta afirmação, de tom revolucionário, possui seu lugar na história da arte e da cultura ocidental. O projeto de Eco vinha de encontro à questionamentos e desejos de uma época de grande efervescência cultural, artística e ideológica.
A vanguarda pedia passagem a todos os setores da sociedade, social-político-cultural-artístico , qualquer limite era considerado uma forma de opressão à criatividade do artista.
A liberdade de interpretação sobre as obras era celebrada com grande entusiasmo por Eco. Mas, será o próprio autor de Obra Aberta que irá rever esta posição algumas décadas mais tarde em um outro livro intitulado Os Limites da Interpretação de 1999 (um título tanto ou mais revolucionário que o outro), provocando assim uma nova discussão tanto no campo da estética como no da crítica.
A tese principal do livro de Eco é a seguinte: “Dizer que um texto é potencialmente sem fim não significa que todo ato de interpretação possa ter um final feliz. [...], o texto interpretado impõe restrições a seus intérpretes. Os limites da interpretação coincidem com os direitos do texto”. É a partir desta constatação de Eco que iremos refletir sobre possíveis caminhos metodológicos para se interpretar e analisar um texto dramático.
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Martha Ribeiro é Doutoranda pela UNICAMP/IEL. Diretora, pesquisadora e roteirista.
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