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Algumas considerações sobre a arte de interpretar um texto dramático (2)
Martha Ribeiro
A teoria da interpretação infinita, preconizada por numerosos estudiosos da arte nos anos 60, refuta a idéia de que os enunciados, as palavras, possuem um sentido literal, ou seja, um sentido comum anterior a qualquer ato de liberdade do leitor sobre as formas lexicais.
Esta questão do “sentido literal” do texto significa, por si só, uma restrição à idéia do texto enquanto um universo aberto à espera de infinitas descobertas e de hipóteses interpretativas.
É claro que toda leitura é um ato de desconstrução e que é possível dentro de uma obra observar hipóteses de leitura contrastantes entre si, mas há certas regras gramaticais (a língua) e linguísticas (o uso da língua/ a fala) legitimadas pela nossa história cultural.
Eco nos sugere, como exercício de interpretação, certos critérios de economia que podem nos auxiliar a rejeitar certas interpretações desviantes, provocadas por um deslizamento irrefreável do sentido: “os limites da interpretação coincidem com os limites do texto”.
Há interpretações que são totalmente inaceitáveis e é o próprio texto que irá impor restrições a seus intérpretes. Como salienta ironicamente Eco, “a similitude tem nariz de cera, pois toda coisa pode ser semelhante a uma outra”.
Entendendo o texto como objeto e parâmetro de suas análises, elimina-se a idéia da interpretação como deriva, ou seja, dizer que um texto possui muitos sentidos não é dizer que nele não exista nenhum sentido ou que todos se equivalem.
É necessário descobrir um Modus, uma medida de interpretação. É necessário um sistema que permita tornar a interpretação menos arbitrária: “É impossível (ou pelo menos criticamente ilegítimo) fazer um texto dizer o que ele não diz”, sugere Eco.
O leitor, no exercício da interpretação, deve se perguntar quem escreveu o texto, para quem ele foi escrito e quando foi escrito, ou seja, para legitimar hipóteses interpretativas, devemos nos perguntar sobre “o quadro cultural no qual se insere o texto”.
O contexto cultural representa uma redução drástica da pretensão da leitura enquanto deriva. Estes critérios de economia, salienta Eco, que não tem nada a ver com uma pesquisa sobre as intenções do autor, nos obriga a dar um caráter histórico, cultural ao texto, o que necessariamente irá nos indicar percursos de leitura.
Então, quais percursos poderíamos legitimar a partir desta tese de Eco? Ou melhor dizendo, quais metodologias poderíamos utilizar para interpretar sem esbanjamento ou deslumbramento excessivo um texto dramático? Em todo texto há um conjunto de procedimentos, de instruções, de estratégias que devemos prestar atenção se quisermos jogar com o texto (e não contra ele).

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