Algumas considerações sobre a arte de interpretar um texto dramático (3)

Se desejarmos realmente interpretar um texto com arte, devemos ter em mente que todo texto é dono de uma estrutura indicativa de percursos que devem ser respeitados. A partir desta constatação, é possível compreender a afirmação de Eco quando ele diz que todo texto possui um leitor-modelo: “uma espécie de tipo ideal que o texto não só prevê como colaborador, mas ainda procura criar”.

Mesmo sabendo que um texto dramático sugere uma série de interpretações isso não quer dizer que este texto possa permitir uma leitura qualquer, definida por desejos individuais exteriores ao próprio texto. Quando Eco defende a tese de que o próprio texto nos impõe certos limites ele quer dizer que o “objetivo principal da interpretação é entender a natureza deste leitor (modelo), apesar de sua existência espectral”.

O leitor-Modelo de Eco não só é um colaborador do texto como também nasce do próprio texto. Dentro desta perspectiva, é lícito afirmar que toda estrutura textual prevê a presença de Leitores-Modelo e é a partir desta idéia que Eco irá sustentar sua tese.


A qual tipo de leitor o texto se dirige? O que o texto pede ao leitor? Que tipo de cooperação o texto espera de seus leitores? Se todo texto se dirige a um leitor-modelo, deveríamos sempre nos perguntar no ato de leitura: qual tipo de leitor que o texto quer que eu seja? quais são os procedimentos e as estratégias utilizadas pelo texto para guiar este leitor fictício?

Estas perguntas permitem não só tornar a interpretação menos aleatória, como também permite guiar a análise crítica de forma mais criteriosa e menos arbitrária, pois tentando respondê-las, o trabalho do crítico e do interprete partirá do próprio texto, isto é, da análise dos diferentes elementos, procedimentos e instruções utilizados por cada autor em função da natureza dos seus leitores-modelo.


Seguindo estes critérios de economia apontados por Eco, é possível avaliar e refutar certas críticas e leituras desviantes que insistem em utilizar o texto como um receptáculo de suas próprias paixões.


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