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Dificuldades da Interatividade em Televisão
Newton Cannito
A primeira dificuldade é a própria vontade do telespectador de interagir. Como diz o crítico Arnaldo Jabor: “A interatividade é uma falsa liberdade, já que transgride o meu direito de nada querer. Eu não quero nada. Não quero comprar nada, não quero saber nada”.
O espectador de televisão está acostumado à passividade ou, quando muito, à interatividade intuitiva e quase zen possibilitada pelo controle remoto - uma ação que ajuda a inibir o pensamento e não a desenvolvê-lo. (“A Mídia Zen”, de Erzenberger, artigo no qual, na contramão da corrente, enfatiza a necessidade e o valor dessa atitude).
Uma tela padrão de Internet não avança sem o clique do usuário. Na televisão é quase o oposto. Como a recepção é coletiva (de um ponto para vários usuários, enquanto a Internet é de um ponto para um único usuário) o programa continua mesmo com o espectador interagindo.
O que acontece em televisão digital é que, ao interagir, o usuário abre uma janela ao lado da imagem principal, que possibilita um voto, uma compra ou o que o telespectador desejar. Mas em paralelo, o programa continua correndo.
Com o uso do setbox é possível criar possibilidades de gravar o programa no HD do setbox, de forma a permitir que o usuário o interrompa. Isso poderá funcionar no caso dos programas que não são ao vivo.
Mas há muitos programas de televisão cujo grande prazer é assistir ao vivo e, mesmo interagindo, o espectador não quer perder o frescor do ao vivo. O caso mais clássico é futebol, que ninguém quer ver gravado.
Mas também programas de auditório e de debates (como os programas sobre sexo, baseados em ligações com ouvintes, tem um frescor do ao vivo). Além disso, o mais importante, é que parar o programa para interagir pode romper boa parte do ritmo e do prazer construídos pelo criador do programa.
Por tudo isso, o ideal é criar soluções de interatividade simples e que permitam que o usuário interaja ao mesmo tempo em que assiste ao programa. Ou fazer como faz os programas de jogos (Banzai, Who want be milionare?) que incorporam no programa alguns segundos previstos especialmente para quem quer interagir, mas que são cuidadosamente calculados para não incomodar os inúmeros espectadores que, mesmo assistindo a um programa interativo, não querem interagir com ele.
Essa é outra característica dos programas interativos de televisão: eles devem dar ao usuário a possibilidade de não interagir. Alguns estudos de usabilidade da BBC mostraram que programas que obrigaram o espectador a interagir foram grandes fracassos.
O ideal é um programa que dê ao espectador o direito à passividade. Assim como o espectador assiste a um jogo de futebol, ele pode estar assistindo com prazer a outras pessoas jogarem um programa interativo.
Ao falar da interatividade ideal Johnson (“A Cultura da interface”) defende que a boa interatividade não é racional, é intuitiva e prazerosa. É quase como uma criança descobrindo o mundo.
A interatividade ideal em televisão deve ser assim, o que é quase o oposto da interatividade baseada em raciocínio e no modelo de pensamento que foi a base de construção da linguagem da Internet (em especial os estudos de Engelbart e de Vanevar Bush, o famoso “Como nós pensamos”).
Os programas de sucesso apostaram numa programação de TV interativa que mantém o apelo emocional da televisão para, a partir daí, incentivar os telespectadores a interagir com o conteúdo exibido.

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